Apesar de pouca gente se lembrar, hoje, houve um tempo anterior a esse cibernético e robótico mundo da atualidade, onde a prosaica máquina de escrever, cuja invenção é atribuída ao inglês Henry Mill, em 1714, que rec
ebeu o galardão da primeira patente conhecida para uma “máquina artificial para impressão de letras”, muito embora o seu projeto original jamais tenha sido levado adiante, não obtendo sucesso.
ebeu o galardão da primeira patente conhecida para uma “máquina artificial para impressão de letras”, muito embora o seu projeto original jamais tenha sido levado adiante, não obtendo sucesso.
Mais de um século depois, em 1829, o americano William Austin Burt desenvolveu um protótipo inovador, o “tipógrafo”, mas também, por razões desconhecidas, não conseguiu, como esperava, o interesse real dos investidores, e, por isto mesmo, não teve produção em massa.
A primeira máquina de escrever funcional foi criada, em 1867, pelo americano Christopher Latham Sholes. No início, o modelo escrevia somente em letras maiúsculas e tinha teclas dispostas em ordem alfabética, o que dificultava sobremaneira a digitação.
No intuito de resolver o problema de travamento das hastes, contando com a ajuda de James Densmore, surgiu, em 1872, o chamado teclado QWERTY, que organizava bem melhor as letras, aperfeiçoando, assim,o invento.
A partir daí, esse valioso achado veio a facilitar enormemente a vida dos burocratas de repartição, por todos os rincões deste mundão de meu Deus, através do seu sonoro tac tac característico, permitindo, com muita agilidade, a elaboração de instrumentais diversos de escritório.
No fim do século XX, porém, o uso dessas geringonças pseudo-modernas tornou-se algo raro na quase totalidade das empresas, sendo substituídas sumariamente pelo computador, que, com processadores de textos mais versáteis, além de sofisticadas nuances tecnológicas, possibilitavam efetuar o mesmo trabalho de modo bem mais eficiente.
A primeira vez que me deparei com uma máquina de escrever foi nos escritórios da RFFSA – Rede Ferroviária Federal, em Camocim, que funcionavam nos altos do imponente prédio da estação, com uma vista privilegiada da belíssima Ilha da Testa Banca indo até a linha do horizonte sumir dos olhos o mar de esmeralda do braço abençoado do Grande Oceano que o Criador bondosamente havia nos presenteado.
Naquele dia de maio do ano da graça de 1962, com o Rio Piancó ancorado no cais embelezando tudo à volta, acompanhado de meu pai, José Ferreira dos Santos, ferroviário de boa cepa desde a época da saudosa Maria Fumaça, apaixonado incondicionalmente por seu trabalho de chefe de trem, cujos inesquecíveis anos em que exerceu laboriosamente este mister ficaram indelevelmente cinzelados em sua memória, fomos, eu e ele, fazer uma visita beija-flor de cortesia a um amigo seu que pertencia ao quadro burocrático daquela corporação.
Para se chegar aos escritórios, tínhamos que subir uma escadaria de madeira de lei, um tanto quanto íngreme, é certo, cujo início ficava no hall de entrada da estação, colada à sala do agente, que forçava o coração daqueles que se aventurassem a tal desiderato a bater mais aceleradamente, ficando alguns, pelo esforço despendido, apopléticos.
Ao chegarmos, dirigimo-nos, com passos cadenciados, sem pressa, por entre um cipoal de servidores de aspecto cansado, a um canto sossegado daquela ampla sala onde ficava a mesa do Maciel Louro, pessoa de fino trato e de elogiável bom humor, que ostentava orgulhosamente, toda prosa, faiscando um rosário de mistérios, uma Remington novinha em folha. Puxa! Verdadeiramente era uma beleza!
Vendo a minha reação pelo impacto que a máquina me causara, ele, após os cumprimentos de praxe, sentou-se, e, sorridente, começou a datilografar com habilidade incomum uma lauda ininteligível para mim. Depois, dissimuladamente, travou o mecanismo do aparelho, e, afastando-se um pouco, pediu, em seguida, que eu próprio tomasse o seu lugar e tocasse nas teclas. Assim o fiz, todavia nada funcionava.
De pé, ao meu lado, papai ria baixinho da minha absurda estranheza de tudo daquilo. Nisso, num golpe de pura sorte, mexi sem querer na tal peça da engrenagem que causara a mudez da dita cuja. Imediatamente, para alívio meu, a máquina destravou-se – e fiquei contente vendo o papel se encher de várias letras, que teclava, mas sem nenhum nexo.
Aparentando uma grande seriedade, o velho escriturário aproximou-se novamente de nós, e, fingindo compenetração, disse-me que certamente eu seria um mecânico de máquinas de escrever dos bons quando crescesse. Pronto! Ali estava uma profissão boa para seguir, pensei.
Na verdade, porém, eu sonhava ser piloto de avião devido ao fato de ter visto muitas vezes a amerrissagem dos famosos catalinas, pássaros brancos de metal que riscavam com a ponta afiada de suas asas, com infinita graça, o anil celeste, ali, na baía majestosa da Praia dos Coqueiros, pousando suavemente, muito embora se fizesse ouvir, de longe, o barulho estridente dos seus potentes motores, que roncavam sem parar, até serem desligados por completo, espadanando água para todos os lados, naqueles indizíveis anos dourados de minha meninice.
E o tempo voou tão ligeiro!
Não há mais o apito plangente do trem palmilhando as veredas do sertão nem tampouco os navios que um dia embelezaram o nosso porto.
Que pena!
Restaram somente as lembranças que povoam ainda a minha mente.
Na quietude das noites camocinenses, antes de dormir, por vezes, fecho os olhos e deixo que essas recordações tão gratas dos tempos idos aflorem, serenas, fluindo como se fossem um riozinho que busca o mar.
E isto é tão bom!
No entanto, sei, que essa alegria não vai durar muito, pois dias virão em que terei, também, que esperar, tranquilamente, na velha plataforma, assim como fizeram, antes, os meus pais, o embarque no trem estelar.
Como diz o Eclesiastes, tudo tem o seu tempo certo debaixo do cèu!
*Professor e Escritor Camocinense
