Por Avelar Santos*Houve uma época, perdida na névoa do tempo, em Camocim, em que singelos burricos, dóceis aos seus donos, trabalhando, pobrezinhos, desde os primeiros raios do alvorecer até o deus Aton, cansado de tanto caminhar, pelo céu, recolher-se para ir dormir, envolto majestosamente em púrpura real, traziam sobre os seus sofridos dorsos uma mercadoria valiosíssima que toda cidade almejava: a água!
Acontece que em meados do século passado não havia, ainda, por aqui, um sistema regular de abastecimento que suprisse a demanda coletiva desse precioso líquido, algo que, hoje, o SAAE nos disponibiliza tão bem.
A água era trazida para o conforto dos lares dos mais variados matizes sociais, lá do Lago Seco, refúgio ecológico tão inexpugnável quanto a muralha monumental que circundava a velha China, cuja construção, erguida na sua maioria por camponeses, teve início no século VII a.C.; culminando na dinastia Ming, durando quase dois milênios, visava a proteção do império das invasões dos nômades que habitavam as vastas estepes euroasiáticas.
Eram quilômetros de areia branca que os aguadeiros tinham de enfrentar, além de matas de cajueiro gigante que pontilhavam as veredas daquelas paragens.
Assim, entende-se por que somente alguns poucos se aventuravam com os seus animais de carga, por ali, em busca de trazerem água, que era acondiconada em ancoretas, amarradas, com jeito, nos jumentos, para uma fatia pequena dos habitantes da urbe, que, cotidianamente, a recebia nas residências.
Desse modo, devido ao labor intenso, eles detinham uma clientela que se estendia por ruas e becos da cidadezinha, como se fossem os sagazes comerciantes venezianos que vendiam as especiarias, a peso de ouro, na Idade Média.
Na Engenheiro Privat, rua tranquila em que passei parte da mocidade, o “plenipotenciário” do comércio de água era um homem de meia idade, que esquecera por completo de crescer, sabe-se lá o porquê, sempre muito solícito, com um meio sorriso permanente no rosto enrugado, abatido pelas agruras da exstência, alcunhado de “Pretinho”, que atendia, com baita eficiēncia e pontualidade muitas famílias daqui, inclusive a minha.
Recordo-me que a água era armazenada em pequenos barris de madeira, arrolhados cuidadosamente para que não houvesse desperdício, pelos caminhos trilhados, arrumados em cangalhas, dispostos nos lombos da tropa de jumentos que possuía.
Ao raiar da Alva, lá estava ele, sorridente, batendo palmas para anunciar a sua chegada e poder adentrar a casa, cantarolando, baixinho, antigas canções, trazendo o primeiro carregamento do dia.
Nesse penoso trabalho cotidiano, ele era acompanhado por alguns filhos, meninos macérrimos, de olhar triste, que se encarapitavam acrobaticamente em cima das surradas ancoretas, resilientes, que arranjavam mil forças para colocarem a água nos diversos potes, previamente lavados, em que panos limpos eram postos sobre as suas bocarras para que, finalmente, o líquido valioso fosse derramado, neles, coado para não se desperdiçar nada.
Depois, terminado o serviço, distribuía-se, para eles, pedaços de rapadura e frutas do quintal que eram saboreadas com gosto.
Esse ritual demonstrava a importância daqueles gestos tão prosaicos, mas de grande valia para nós, sendo repetidos com frequência.
A água vinda de tão longe, e, trazida com sacrifício extremo, era usada para se beber, na assepsia corporal diária, bem como para se cozinhar.
No dia seguinte, eis que tudo já recomeçava!
E os anos galoparam céleres!
E o progresso, enfim, chegou de mansinho à terra do chefe de trem José dos Santos!
E, por conta disso, os momentos poéticos do passado que nunca quis partir das minhas retinas nem tampouco saiu um instante sequer dos meus neurônios, cinzelado que foi indelevelmente no meu coração, estão cada vez mais ofuscados pelas luzes da modernidade.
E pensar que o simples ato de se abrir uma torneira era algo impensável, para muitos, naqueles tempos idos, vai deixar, talvez, bastante confusos aqueles que não vivenciaram isso.
Toda vez que passo por aquela ruazinha, vejo sombras esparsas nas paredes gastas de minha velha casa – e ouço o eco dos animais do "Pretinho"palmilhando, devagar, as pedras do calçamento, fazendo-me retroceder à bucólica cidadezinha amada - e à singeleza única da vida urbana de antanho.
Que saudades!
*Professor e Escritor Camocinense