Vindo de Pasárgada, minha amada IPUARANA, terra de civismo, religiosidade e cidadania, que reluzia mil sóis na frialdade dos alcantis da Borborema, em Campina Grande-PB, onde aprendera com os meus inesquecíveis mestres frades franciscanos os fundamentos da fé, dessa capaz de mover montanhas, se preciso fosse, além de estreitar laços com o conhecimento, que brotava como se fora fonte inesgotável de água pura em cada recanto dos claustros sagrados do velho seminário, começando, assim, a ler o mundo bem melhor, cheguei a Fortaleza no iníco dos anos 70 para dar continuidade aos estudos, indo morar numa república de estudantes que ficava na Liberato Barroso, perto do Liceu.
A casa era antiga, mal desenhada, sem conforto algum, a não ser o teto que nos cobria e que nos resguadava das intempéries do tempo, tendo somente um olho, cuja córnea apresentava um estranho branco fuliginoso, que, se aberto, olharia para um grande posto de combustível postado ao lado de uma parada de ônibus destinada àqueles que se dirigiam ao terminal da Praça José de Alencar, que abrigava, por essa época, sabe-se lá Deus como, trinta e cinco abnegados tremembés.
Logo na entrada havia uma saleta, que servia tanto de ponto de bate-papo dos inquilinos quanto de dormitório improvisado, em que camas de campanha desajeitadamente sobrepostas umas às outras, nas paredes bolororentas, ocupavam tristemente parte do seu exíguo espaço, tendo uma porta que se comunicava ao único aposento privativo daquela residência que era ocupado por veteranos felizardos.
Depois, de forma acanhada, como se pedisse licença para estar ali, vinha um pequeno corredor que desaguava, após passar por dois aposentos semi-abertos, numa sala ampla usada comumente para leitura e reuniões, colada à cozinha, quase sempre vazia de tudo, além de uma salinha em que uma televisão preto e branco se destacava como se fora rainha coroada, cujos súditos, que lhe prestavam mil honrarias, podiam pegar à noite um pouco da brisa que soprava do quintalzinho.
Oriundos, a maioria, de famílias simples, que sonhavam de olhos abertos com um porvir decente para os filhos, nós, republicanos tremembés, enfrentávamos com altivez as agruras de uma vida espartana, dedicando-nos com redobrado ardor às lições escolares, sem, no entanto, descuidarmos da manutenção da casa, dividindo as tarefas em grupos formados sob a anuência dos membros da diretoria.
Tivera, logo na chegada, no meu primeiro dia de convívio com os nobres conterrâneos uma antártica recepção de boa vindas por parte deles.
Fui deixado sem um pingo de constrangimento de quem quer que seja a um canto da saleta, sem saber o que fazer com a malota encardida de couro que trazia nas mãos nem tampouco com a tristeza aterradora que tomou conta de mim - e a harpia da saudade devorou o meu coração.
Os dias se sucederam em profusão quais velhas tartarugas cansadas!
Nesse ínterim, procurava fazer amizades e ajustar-me àquela situação.
Como eu era o mais jovem ocupante dali, aos poucos fui ganhando a simpatia e uma certa dose de regalia dos inquilinos mais antigos. No início puseram-me para dormir em um local deveras impossível de se ter descanso, mesmo se tratando de uma jovem carcaça, pois a minha rede, armada ao largo do estreito corredor, era violentamente arremessada ao ar, comigo dentro, claro, pelos gentis passantes, em face de ela ficar atravessada, no dito cujo, obstaculando, portanto, a passagem dos educados moradores, que, talvez, querendo treinar arremesso de peso para as olimpíadas não me davam nenhum sossego.
Inúmeras noites insones depois, com olheiras profundas riscando o meu rosto e uma sensação de vazio interior, algo que ainda me persegue até hoje, passei a dormir num lugarzinho menos transitado.
Agradeci a Deus por mais esta bênção recebida de forma tão generosa, passando, a partir daí, a ter um sono sem muita interrupção. Exceto nos finais de semana quando alguns colegas chegavam, alta madrugada, das farras caligulianas, soltando cachaça pelas ventas, vindos do Grêmio dos Ferroviários ou do Santa Cruz. Aí, não tinha jeito! Tinha que aturar, sem nada falar, a luz acesa na cara, os seus monólogos ininteligíveis, e, por fim, os roncos intermináveis desses adoradores contumazes do deus Baco que sempre queriam incensá-lo.
Assim, repentinamente, vi-me, assustado, num mundo novo, à primeira vista hostil, em que costumeiramente uma babel de vozes se levantava como leviatã furioso às alturas, rompendo as horas, parecendo que nunca cessaria - e o silêncio manifestava-se somente quando a madrugada amiga dava o ar de sua graça e Morfeu abraçava todos nós.
Tudo isto chocou-me tanto que disse, incisivo, falando baixinho com os meus botões, que teimosamente queriam desapregar-se da camisa, que aquilo era um hospício e que eu certamente não duraria muito por ali.
Como estava eu redondamente enganado quanto a isto! Foram sete longos anos de sofrida resistência e infinitas vivências que me moldariam para encarar, sem quaisquer temores, as turbulências de voo que o piloto do aviãozinho do futuro por certo iria me demonstrar.
Com paciência de Jó e inaudito esforço, adquiri a minha nova e indestrutível armadura, passando a ser mais um pacato morador da bela loira desposada pelo sol, que começava a levantar-se rumo ao céu.
Estudava pela manhã no Colégio Redentorista, que distava anos-luz do centro, lá para as bandas da Parangaba, e não chegar atrasado às aulas para não ter que transpor um muro de quase três metros de altura era o meu dilema maior. Acordava cedinho, e, sem tomar a refeição matinal, tratava de andar a passos rápidos uns bons oito quarteirões para poder pegar o busão Igreja São Raimundo que me deixaria no meu destino.
Vezes sem conta, na invernia, sob um dilúvio que assustaria até Noé, corri feito louco atrás desse coletivo, pedindo a todos os santos que fizesse o motorista divisar a minha silhueta, ensopada dos pés à cabeça, e, compadecendo-se daquele rapaz franzino, abrir a porta traseira do veículo para que eu´pudesse chegar a tempo para as aulas.
Foram tempos extremamente difíceis, mas de infinito aprendizado!
Sem ainda conhecer Epicteto ou Marco Aurélio, tornar-me-ia estoico!
Outros de nós, também, certamente, seguiriam este mesmo caminho!
O NEC (Núcleo dos Estudantes Camocinenses) ao longo de sua extensa trajetória existencial acolheu, no seu recinto, inúmeros tremembés, sendo que alguns tornar-se-iam figuras lendárias ao escreverem, com dedicação, suor e lágrimas, páginas memoráveis de superação das grandes dificuldades existenciais, levando-os aos píncaros do sucesso.
Na singeleza de suas paredes foram esculpidas, por muitos tremembés, extraordinárias histórias que falam da nobreza e dignidade humana, que, se enfeixadas em um livro, ele seria um best seller espetacular.
A todos eles, o meu muito obrigado pela camaradagem e convivência.
Se não fora o NEC, que me deu asas potentes para voar além da tempestade, acima do mar, eu não saberia enxergar que o sofrimento e a aflição também passam, e que, se um dia me sentir sozinho, lembrar-me-ei que o Senhor jamais me deixará porque sempre comigo estará.
*Professor e Escritor Camocinense