O trem corria sonolento naquele trecho do ramal ferroviário Camocim-Sobral, depois do Tangente, cheio de pequenos cortes, parecendo mesmo sofrer dores atrozes de parto para poder prosseguir palmilhando as veredas do sertão até chegar a Massapê.
Nisso, o relógio do tempo, cansado certamente de tanto correr, parava de vez, demonstrando acidamente o seu lado robespiano, enquanto o sacolejar do vagão dava muito sono, alheando-nos de tudo, inclusive da paisagem agreste filtrada pelas amplas janelas.
Após certo tempo, porém, o paquete começava a correr, criava asas, querendo voar como Mercúrio, filho de Júpiter, encarregado de levar as mensagens para os deuses do Olimpo.
E aí, quando se avistava a silhueta difusa da caixa d'água, bronzeando-se ao sol matinal, lá longe, no horizonte, sabia-se que a cidade estava próxima.
As águas alegres do Rio Contendas, que, por anos, deram-me momentos de tanto contentamento, escondidas pela mata ciliar, acompanhavam a paralela dos velhos trilhos, reluzindo uma miríade de cores sob o afago dos persistentes raios solares, e, finalmente, eis que a cidadezinha irrompia na sua majestade tranquila.
Como era bom ver o corre-corre das pessoas, ao longo da via férrea, acenando para os passageiros; a disputa acirrada dos chapeados para se posicionarem perto do carro-bagageiro, que, por dever de ofício, sabiam exatamente onde pararia; o vibrar de mil vozes de vendedores de pamonha, milho cozido, refrescos, broas, peixes, tapiocas, paçoca - e demais produtos simples que se possa imaginar.
Aquele mercado persa era característico de quase todas as estações da Rede Viação Cearense, mesmo naquelas nanicas, onde somente o prédio da agência se destacava, pairando soberano.
À medida que o trem diminuía a velocidade, divisava-se melhor a Coluna da Hora, as torres da velha Matriz, a Praça da Estação, o casario secular que se esparramava em quase todas as direções.
Aquele barulho todo era música para os meus ouvidos e o desenrolar dessas cenas, na Pérola do Sertão, no ocaso dos anos 60, iguaria para os olhos contemplativos.
Ao descer, enfim, do comboio, o meu coração sorria de tão contente, vibrando de tanta alegria.
Com a pesada mala de couro, numa mão, ia acenando para todos os conhecidos, dirigindo-me à casa de meu avô, sem demonstrar, pelo caminho, cansaço ou impaciência, muito embora tivesse acordado às 4h da madrugada para viajar.
Sentia-me leve e renovado.
A rua que me conduzia, solícita, ao meu destino, era de paralelepípedo, larga, reta - e um tanto íngreme. Da Estação até à residência de meus avós maternos era uns seis ou sete quarteirões. Mas, repito, ia feliz, leve como pluma de algodão novo, ansioso por abraçar vovô Raimundo Anastácio e vovó Marieta, pedir-lhes a bênção, e, com ares de gente grande, contar-lhes as novidades de casa, que minha mãe, Margarida, durante séculos, havia me preparado para brindá-los.
Assim, com desembaraço de papagaio falador, eu respondia às perguntas que me dirigiam e, quando percebia que o meu estoque de notícias ia acabando, sabia que era hora de desfrutar das delícias que vovó prepara.
Depois de um banho, tirando água de um pote rechonchudo, dirigia-me à cozinha, onde vovó, num fogão à lenha, fazia, para mim, carne de sol fritada na manteiga da terra.
Paizinho do Céu!
Aquilo era um banquete digno de Zeus, que eu, reles mortal, saboreava com apetite incomum.
De barriga cheia, bastante satisfeito, eu fingia que ia me levantar da mesa.
Nisso, vovó Marieta rapidamente pegava uma terrina de louça, com doce de leite, colocando-a, com jeito, sobre o aparador.
Ah! Aquilo é que era vida!
E o dia transcorria fanciscanamente!
Um pouco antes, porém, do deus Amon-Ra sumir, por trás da Serra da Meruoca, vovó colocava as cadeiras de palhinha, na calçada, para sentirmos o vento da noite e tirarmos um bom dedo de prosa.
Nesse ínterim, na casa ao lado, uma jovem aparecia na janela, linda, de tranças sobre os ombros, radiante, ostentando um sorriso angelical que me derretia - feito sol a bater na neve.
Seu nome era Miriam. Devia ter 13 anos de idade.
Aquele era o momento mais esperado por mim.
Mergulhar na doçura daquele belo sorriso e aquecer-me no brilho de seu olhar. Tudo era muito rápido. Entretanto, como me sentia feliz! Nada nos falávamos. Para quê? Os olhares eram eloquentes.
E, dia após dia, lá estava ela cada vez mais bela, todo finzinho de tarde, enfeitada, no seu vestido de festa, emoldurando os meus sonhos de menino naquela abençoada janela.
O rio da vida levou Miriam para longe dos meus olhos.
Nunca mais a vi!
Não vou mais a Massapê.
Nada mais há do passado!
Meus avós partiram para as estrelas. Que pena!
Não há mais trem, nem estação, nem casa...
Até mesmo o rio, pobre infeliz, sucumbiu.
Somente eu sobrevivi.
E uma saudade gigante, que me dilacera o peito, diz-me, num cantochão monótono: Tudo passou! Não há mais volta! E o que lhe resta, agora, é esta dor atroz, dor que não tem fim!
Pobre de mim!
*Professor e Escritor Camocinense