Os cães descendem do lobo cinzento, Canis lupus, e sua domesticação ocorreu há 40 mil anos atrás, quando lobos menos agressivos se aproximaram de grupos humanos, atraídos por alimentação, desenvolvendo, a partir daí, entre ambos, uma interação duradoura.
Este processo aconteceu antes do desenvolvimento da agricultura, o que torna o cão o primeiro animal domesticado pelo ser humano, precedendo em milênios a domesticação de ovelhas, cabras e bovinos, iniciada há aproximadamente 10 mil anos com o advento do Neolítico.
Quem o visse, de patas para o ar, como se quisesse abarcar o céu, dormitando tranquilamente sob o pé de tamarindo, no terreiro da casa grande, perto da baixa, sonhando, talvez, com as beldades do seu harém, mal poderia imaginar a esperteza e valentia daquele vira-lata do meu avô, Antônio dos Santos, que lhe dera um nome pomposo: Sultão.
Era um cachorro manhoso, inteligente, de comportamento imprevisível, pacato na maioria das vezes, perdidamente louco pelo dono, não largando dele um minuto sequer, enquanto vovô cuidava zelosamente de suas plantações, que achava tempo para mil brincadeiras, ao seu lado, como se este pudesse ser esticado ao máximo qual liga nova de baladeira, o que certamente, se soubesse, Einstein o desaprovaria.
Certa feita, o trem cargueiro em que vovô era guarda-freio, naquele fatídico dia, sofreu um acidente, próximo de Crateús, quando o último vagão do comboio descarrilou, o que veio a ensejar um atraso considerável, chegando o paquete alta madrugada na cidade de Sobral.
Lá, bastante cansado, ele arranchou-se numa pensãozinha, colada à estação, cuja proprietária, uma senhora de traços finos, simpática, era conhecida sua, aguardando, ali, em segurança, a chegada da manhã.
E ele teve um sonho, envolto nas sombras do mistério, em que via um homem, ao largo de um riacho, cavucando incansavelmente, com uma pá, entre os pedregulhos, como se buscasse desesperadamente por algo, praguejando, consigo mesmo, por ainda não ter encontrado aquilo que tanto procurava, todavia sem jamais desanimar daquele seu intento.
Em dado momento, porém, sob a copa densa de um angico, que sombreava tristemente uma lápide antiga, cujas raízes estavam encravadas sob os lajedos, onde a água fazia um grande remanso, fluindo com mais vagar, o estranho começou a gritar de alegria, com voz rouca, que ribombava além, apontando com o dedo descarnado, em riste, encarando o meu avô, para um potezinho que emergia do solo.
No pesadelo em que o vovô se encontrava todo enredado, sem saída, o estranho, por fim, segredou-lhe, com detalhes, onde enterrara a botija.
De volta ao lar, no dia seguinte, relatou a minha avó, D. Guida, os percalços, no trabalho, bem como lhe falou sobre o nebuloso sonho que ele tivera, que o deixara deveras impressionado, dizendo-lhe que, em breve, providenciaria os ajustes necessários para fazer aquela viagem em busca do tesouro, que, por certo, demandaria muita pertinácia dele.
E assim aconteceu!
Era a boca da noite, quando o meu avô dirigiu-se, a cavalo, ao Riachão, que distava poucas léguas daqui, acompanhado de um foguista da RVC, amigo seu, que o ajudaria naquela lide, além do Sultão, seu fiel escudeiro, que ia no dorso da montaria, no intuito de procurar a botija.
Ao chegar ao vilarejo, ele avistou, naquelas cercanias, o riacho que corria, no inverno, mais veloz que Usain Bolt, ouvindo, ao se aproximar da solitária tumba campestre, que vira no sonho, o pio de uma coruja.
Desmontou – e aguardou, calmamente, com o seu cão a proteger a retaguarda, a lua percorer mais um pouco a amplidão do firmamento.
Instantes depois, encontrando-se no local exato em que a botija estava, como anunciado pela aparição, vovô ouviu sons pavorosos como se as portas do inferno tivessem sido momentaneamente abertas pelo diabo.
Homem corajoso, de fibra incomum, ele não se intimidou com os lamentos lancinantes, que rugiam soturnamente à sua volta, nem tampouco com aqueles uivos horripilantes que varriam tudo pelos ares.
Diante de toda aquela fantasmagoria que acabara de ouvir, tremendo igual vara verde batida fortemente pelo vento, o Chico da Ló, coitado, quase teve um piripaque, ali mesmo, contendo-se, porém, ao rezar com devoção e fé a oração de São Cipriano para afastar os espíritos maus.
Ao primeiro toque das enxadas, na terra úmida, aquela babel de vozes pareceu recrudescer mil vezes, fazendo com que o cachorro começasse a latir bem alto, como se quisesse espantar qualquer assombração, enquanto continuavam o serviço, vindo a encontrar, após alguns angustiantes minutos, um pequeno vaso de barro que emergia do chão.
Após eles terem desenterrado a botija, fez-se profundo silêncio!
Ao abrirem a tampa que vedava o gargalo estreito do recipente, retiraram dali algumas notas imprestáveis de mil réis, carcomidas vorazmente pelo passar dos anos - e um punhado de dobrões de prata.
Antes de eles partirem de volta a Camocim, de posse das moedas da botija, meu avô fez uma prece fervorosa ao Senhor pela alma daquele que o luar cobria, com seu manto de luz, a campa em que repousava.
Acomodados cada um nas suas montarias, com o Sultão todo contente, na sela de meu avô, como se ele soubesse que tudo acabara bem, retornaram para casa.
E as estrelas cintilavam, majestosas, mais do que nunca visto, no céu, a harmonia e beleza da criação divina.
*Professor e Escritor Camocinense