No Brasil, trazido pelo grande estadista mineiro JK, que sonhou como ninguém o país do futuro, chegou com as primeiras dores do parto da indústria automobilística nacional, e logo logo se tornou uma verdadeira coqueluche verde-amarela contagiando em cheio os embasbacados pacientes das classes A a Z, vendendo como água da fonte no pingo do meio-dia no deserto de Gobi.
Comprei meu primeiro fusca - um velho 77, cor de pitanga, motor 1.300 - há cerca de quatro anos atrás. (Antes do casamento consumado, foram três meses de namoro platônico, com direito a passeios rápidos em itinerários anões que não me proporcionavam o mínimo deleite nem o conhecimento necessário de sua já combalida saúde)
Extremamente zeloso, deixei-o pouco a pouco morrer de inanição. Também pudera! Preocupava-me única e exclusivamente em colocar o combustível - às vezes nem isso - e, a cada década, a passo de tartaruga, trocar o óleo do cárter.
Assim, com todo esse zelo e cuidado de amante de primeira viagem, comecei a fazer a perigosa - e cansativa - cabotagem semanal por todas as oficinas da cidade, cujos mecânicos, dissimuladamente, no início, e, ostensivamente depois, benziam-se ao me ver chegar com o meu vermelhinho - mais conhecido por aqui que arroz de terceira - sabendo eles que viria pepino grosso para descascarem.
Não! Não os culpo por essa atitude tão hostil e pouco educada que fere de morte o código civilizado de boas maneiras. Afinal, eles é que sofriam de verdade - em dose dupla, cavalar mesmo em descobrir em tempo recorde qual era a manha do carro naquele dia.
Assim, sol a sol, fui esgrimindo - feito mosqueteiro de Luis XIV - minha paciência com os donos das oficinas locais em combates mortais de tédio, a anos-luz de distância do glamour impecável e característico de um duelo da época dos nobres medievais.
O meu naufrágio inicial deu-se nas costas da África Setentrional - oficina do Raimundinho - onde, inadvertidamente, quase sucumbi.
Foi lá que fizemos o célebre milagre da transformação da cachaça em vinho: o carro entrou todo quengado e saiu que foi uma lindeza, reluzindo e derramando ouro por onde passava. Gastei tanto com esse remendo improvável que certamente compraria outro pé de borracha de igual quilate e ainda sobraria troco suficiente para uma pequena farra no Timoneiro ou quiçá lá para as bandas do exótico, ecológico e sossegado Bar das Quengas.
Depois vieram naufrágios outros - e intermitentes - nas costas da África Meridional, Piau, Central, Bené-Josal... e outras quantas que não sei - e nem quero saber o nome.
Mas não pensem vocês que tudo são dissabores! Não! Vivi uma intensa lua-de-mel com o meu fusca e sou eternamente grato a ele pelos bons momentos que - juntos - passamos.
Desbravamos incólumes novos lugares, conhecemos pessoas interessantes, estreitamos velhos laços de amizade, percorremos, felizes, afrodisíacos caminhos virgens e, embevecidos - e sempre em ótima companhia - fomos testemunhas oculares do nascer e do pôr-do-sol de belos dias, além de contemplarmos o caminhar incessante da lua e das estrelas, em noites perfumadas memoráveis...
Por onde andamos, deixamos um rastro de saudade - ou um sentimento de alívio quando partimos. Abençoaram-nos e amaldiçoaram-nos vezes infinitas. O que fazer? É a vida!
Aos diletos amigos - e são tantos que não dá para citá-los todos - que me ajudaram gentilmente a sair do prego em diversas ocasiões, e nas horas mais impróprias, empurrando resignada e alegremente o fusquinha Camocim abaixo e acima, sem se importarem com os apupos e impropérios terríveis proferidos pela plebe rude, o meu imorredouro apreço.
Tranquilizem-se! O carro está com os cascos afiadíssimos e em ponto de bala! Tão cedo - queira Deus - vocês não vão precisar suar a camisa: acabo de trocar o motor por um outro - tão velho quanto o antigo, mas que ainda funciona a contento - e espero honestamente passar pelo menos algumas semanas desfrutando do prazer de dirigir ser dar vexame no meio da rua, atrapalhando o tráfego e irritando - com razão - os pacatos e educados moradores de nossa belíssima urbe.
Como seria boa - e oportuna - esta breve pausa para meditação, sem ter que atravessar o horripilante - e velho conhecido - corredor fantasmagórico polonês dos atropelos diários de carburador sujo, tanque de gasolina furado, bateria arreada, câmbio emperrado, burrinho de freio cansado, embreagem com distrofia muscular, platinado, bobina e velas imprestáveis...
Arre égua! Eita lasqueira da moléstia!
Se isto acontecer, tenho uma estranha premonição que sentirei saudades! Por mais absurdo e esquizofrênico que isto possa parecer, perdoem-me, mas já estou tão acostumado com este desmantelo todo do meu fusca que no dia em que ele não apresenta problema algum, ponho as barbas de molho, fico preocupado, sorumbático mesmo, de olho na ressaca futura que certamente será de amargar.
E aí, salve-se quem puder!
*Professor e Escritor Camocinense


