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sábado, 27 de maio de 2017

LAMPIÕES E VAGA-LUMES, POR AVELAR SANTOS

Às vezes, fico debruçado na janela do tempo, ruminando coisas pretéritas, remotas, que, paradoxalmente, de tão nítidas, parecem mesmo querer voltar de pronto ao momento presente. E como nesse instante, aqui, do batente, em Fortaleza, através das reluzentes vidraças dos portais, presencio um toró daqueles, que acaricia copiosamente cada sedento palmo de chão, deixando as árvores tão sorridentes, que acenam sem parar em todas as direções, a minha espaçonave imediatamente arremete rumo ao passado mais distante e vejo-me novamente a correr pelas ruas de Camocim, infinitamente feliz, disputando, com outros meninos, no centro da urbe, os melhores jacarés para tomar um delicioso banho de chuva. 
Depois de plenamente esbaldados por tamanha dádiva preciosa vinda dos céus, o mar nos aguardava cheio até à borda, ali, próximo à Cabana, de D. Elisa Pinheiro, para um inigualável e oportuno mergulho, além de nos proporcionar a chance ímpar de darmos umas boas braçadas, despencando, levados em comboio pelas ondas, rumo ao Trapiche. Paizinho, Senhor Onipotente! Que maravilha era àquilo! As horas galopavam loucamente, e, quando nos dávamos conta, já era quase noite fechada. Mesmo com todos os músculos gritando por clemência, queríamos a todo custo esticar um pouco mais aquela provinciana brincadeira, mas tínhamos que nos recolher ao lar, apressados, para não levarmos algumas doídas advertências de censura mais explícita de nossos genitores. Assim, tremendo de frio e pingando água por todos os poros, dispersávamo-nos rapidamente, cada um prometendo voltar a encontrar-se novamente com os amigos na próxima chuvarada que porventura ocorresse.
Ao chegar a casa, dirigia-me prontamente a um rechonchudo pote, repleto de água dormida, que apresentava inúmeros hieróglifos estilizados por toda sua extensão, muitos artisticamente personalizados, que me ajudava tranquilamente a tirar o sal do corpo. Após vestir roupas limpas, o jantar camaradamente me esperava e era degustado sem pressa alguma. Na sala, um velho rádio Philco, de válvulas incandescentes, um pouco cansado, coitadinho, pelo uso intensivo, era a nossa ponte com o chamado mundo civilizado de além-mar. Dele fluía um pouco de tudo: do futebol, passando pelos noticiários, até as músicas inesquecíveis da MPB de outrora, com suas insuperáveis melodias e letras geniais. Logo, o cansaço chegava e induzia-me a procurar a rede amiga para dormir regaladamente o sono tranquilo da inocência.
De manhã cedo, eu acordava totalmente refeito, de corpo e de alma renovados, sem mancha alguma das estripulias praticadas no dia anterior, e, por uns instantes, punha-me em perfeita sintonia com o pulsar do caloroso coração da velha casa, sentindo suavemente o seu ritmo alegre, ouvindo, atento, cada som que ela emitia, observando, curioso, através de pequenas aberturas nas telhas, feitas a capricho pelos gatos das redondezas, as nuvens que já corriam ligeiras pelos ares, carregando sonhos e tangendo poesias. Antes de levantar-me, humilde e contritamente agradecia ao bom Deus por tudo que Ele generosamente dia a dia me ofertava, principalmente pela vida de meus pais e irmãos - e pela felicidade infinita que desfrutava dentro de mim, companheira fiel de inesquecíveis momentos sublimes naqueles imorredouros anos da longínqua infância.
A ida diária à Escola era um prazer imenso que inundava todo o meu ser! Lá, o tesouro incomparável do conhecimento esperava-me pacientemente para ser desbravado, a conta gotas, é verdade, naquele cipoal imenso de livros e mapas.
Os dias transcorriam ordeiros e tranquilos! Nada havia que nos fizesse perder a esperança no futuro. Tudo à volta falava de amor, aprendizado e abnegação. 
Com os olhos úmidos de perdidas lágrimas, fruto talvez da saudade abrasadora que ora angustia terrivelmente o peito, volto sofridamente à atualidade. É hora de recomeçar a labuta - e deixar as lembranças guardadas a sete chaves nos encardidos porões da memória até que elas resolvam aflorar novamente, pobrezinhas, com toda singeleza que lhes é peculiar.
Avelar Santos (Professor e Escritor)

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