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sábado, 17 de junho de 2017

FIAPOS DE ESPERANÇAS, POR AVELAR SANTOS

No velho sobrado senhorial, outrora certamente elegante e bastante vistoso, plantado firmemente, desde os primórdios do nascimento da urbe, numa rua pouco movimentada do centro da cidade, as janelas e portas que, muitos anos atrás, olharam curiosas as pessoas passando, indo e vindo, na azáfama cotidiana, perscrutando mesmo os seus íntimos segredos, mantinham-se, cautelosas, permanentemente fechadas durante boa parte do dia.
Na sala ampla de estar, cujas paredes desbotadas mostravam inteiramente a inclemência cruel dos anos, enegrecidas, aqui e ali, pela poeira acumulada dos séculos, via-se inúmeros retratos, que se penduravam perigosamente nelas, disputando cada espaço vazio como se fossem um bando de alpinistas amadores, desfrutando, ávidos de contentamento, da aventura eletrizante da primeira escalada, que falavam a quem se dispusesse ouvir, nostalgicamente, é verdade, todavia de forma nobre e altiva, de um passado mais remoto, onde o colorido eloquente da vida enchera todos os grandiosos aposentos – e a alegria mais cristalina reinara absoluta naquele casarão.
Engastado como joia rara, numa pálida moldura dourada, sobressaindo-se por completo dos demais, pelo seu tamanho e beleza, havia um retrato que chamava de imediato a atenção de qualquer circunstante: era uma fotografia esmaecida de um casal bastante jovem, ao lado de suas filhas pequenas; ele, bem apessoado, na sua roupa de cáqui, com um vasto bigode, de olhar sério e inquiridor; ela, mal saída do frescor da adolescência, de feições finas, de tranças nos cabelos, segurando meigamente um bouquet de rosas, esboçando um tímido sorriso; à frente deles, duas belas meninas, mãozinhas dadas, rostinhos colados, com os grandes olhos amendoados faiscando sonhos, como se quisessem desvendar o futuro que lhes aguardava.
Adentrando-se um pouco mais a residência, dava-se com uma cozinha espaçosa, com uma mesa enorme, convidativa, feita para uma família rica, postada estrategicamente escondida dos fortes ventos, que uivavam sem cessar por todos os seus recantos, cheia de todos os utensílios domésticos afins que se possa imaginar.
Ao lado desta, houvera um bem cuidado jardim, impecável, vestido do verde mais sublime, cujas flores, de tonalidades variadas e exótica beleza, aromatizaram toda vizinhança.  
No andar superior ficavam os quartos, todos voltados para o nascente, soberbos, tanto na sua maciça estrutura, quanto na indumentária luxuosa dos móveis diversos que pontuavam nababescamente suas nobiliárquicas acomodações, cuja vista espetacular compreendia, para cada um deles, em separado, um pedaço generoso de esmeralda do incomparável mar cearense que se esparramava, gigante, lá embaixo.
Não se sabe bem por que o navio do tempo navegou célere e dantescamente por mares sombrios – e perdeu-se, pobre infeliz, na imensidão infinita de tantos oceanos! Com isto, a morte, vil megera, ladra maior da humanidade, visitou, ensandecida, aquela desgraçada casa, levando de roldão, ano após ano, impiedosamente, pessoas e também esparsos sentimentos, deixando à mostra (sem jamais se importar um tantinho assim que fosse) rastros tenebrosos de supremas agonias, aflitivas lamentações e lancinantes dores.
Passadas tantas décadas, depois que o burguês submergiu, com sua amada, na esteira fugidia da efêmera existência, agora, observa-se naquela mansão, um estranho ritual: ao finzinho abençoado de cada tarde, duas velhinhas, amigas inseparáveis, com andar trôpego, claudicante, parecendo assaz assustadas, abrem uma portinhola, que se comunicava com o exuberante jardim de antigamente, cujos gonzos enferrujados gemem assustadoramente, afugentando alguns desavisados passarinhos que ainda teimam, ali, coser tranquilamente seus ninhos, e, saindo de seu inexpugnável refúgio, do seu casulo particular, põem-se, silenciosas, pobrezinhas, sentadas, num banco de cimento carcomido pela chuva e por outras intempéries, ruminando, quietas, quiçá fatos pretéritos que marcaram indelevelmente suas radiosas jornadas. 
Assim, por alguns breves momentos, ficam à sombra perfumada do majestoso bogari, que resistiu não se sabe como bravamente a tudo, e se deixam levar pelas asas ligeiras das doces lembranças, retroagindo, ambas, de um salto, à infância e eterna juventude, embora presentemente tão distantes, marejando às vezes os olhos cansados com lágrimas de saudades infindas. Antes, porém, que as estrelas caminhem a esmo, pelo céu, e anunciem, solenes, a chegada definitiva da noite, elas se recolhem, misteriosas, ao interior da casa – e delas não se tem mais notícias até as mesmas horas do dia seguinte. 
Oxalá, bom Deus, refúgio e fortaleza de tantos desgraçados, fiapos de esperanças ainda restem na complexa teia de vida dessas frágeis senhoras - e a chama bruxuleante do amor (mesmo aqueles doídos perdidamente que se foram) possa ainda aquecer, mesmo que timidamente, seus pobres e estafados corações!
Avelar Santos (Professor e Escritor)

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