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sábado, 1 de julho de 2017

NO TEMPO DOS GIBIS, POR AVELAR SANTOS

A leitura alarga horizontes a perder de vista e nos conduz a voar no infinito, permitindo-nos degustar os incontáveis sabores e as delícias de cada viagem.
Como uma ilha exótica, cresci rodeado de livros por todos os lados. Desde a mais longínqua infância, por influência direta de meu pai, que era um ávido leitor, vi-me apaixonado por uma infinidade deles, de belas e faiscantes gravuras, cujas histórias eu não conseguia decifrar, pois a Pedra da Roseta do Alfabeto Lusitano ainda era um intrigante mistério para mim.  Contudo, todo abençoado dia eu era arrebatado para o Céu (nada certamente parecido com a transladação de Elias)  tamanho a felicidade que sentia ao folhear cada página muda dos inúmeros Clássicos, espalhados pela casa inteira, ficando horas a fio nessa maravilhosa e segura aventura.
Quando, finalmente, apropriei-me de vez da fórmula mágica de decifração dos incomparáveis hieróglifos portugueses, cuja sonoridade única nos leva a sonhar, recitava-a sem pressa, continuadamente, não largando mais um só instante sequer aqueles preciosos amigos, que, paciente e camaradamente revelavam-me os seus extraordinários segredos, cinzelados em alto relevo na montanha do conhecimento, devorando tudo que estivesse ao meu alcance.
No Camocim de outrora, cujas águas rápidas e fugidias dos anos se escoaram definitivamente, turbilhonantes, para o Mar da Saudade, na metade do segundo quarteirão da Senador Jaguaribe, no sentido Norte-Sul, do lado direito, à sombra de um imponente Fícus, havia a Casa das Revistas, ponto de encontro da Juventude da época que gostava de palmilhar o mundo surrealista dos Gibis.
Ali, enfileirados, sem obedecer à organização alguma e livres de quaisquer normas, que, porventura, pudesse incomodá-los, vistosos, chamativos, distribuídos aleatoriamente em grandes prateleiras, estavam heróis espetaculares (Buck Jones, Kit Carson, Cavaleiro Solitário, Roy Rogers, Tarzan, Lanterna Verde)  e vilões estereotipados, cujos desenhos nos fascinavam e riscavam a imaginação, com seus quadrinhos característicos por onde mil personagens nos falavam, a nós, pobres e felizes mortais, recém-saídos do encantamento brejeiro da doce meninice. Que maravilha era aquilo, Paizinho Celestial!
Presumo que pelo fato de ser um cliente fiel, embora jamais com dinheiro sobrando, nos bolsos miúdos, cuja sina de não ter um tostão furado me persegue até hoje, muito embora use, não sei para que, bolsos largos, agora, o dono gentilmente me permitia ver praticamente todos os Gibis, manuseá-los, com extremo cuidado e carinho, olhar curiosa e demoradamente os seus magníficos desenhos, inebriar-me com o cheiro das páginas novinhas, que recendia a perfume dos deuses, relancear os olhos pelo enredo de cada um e arriscar-me mesmo a ler, embevecido, alguns trechos, enquanto ele fingia que estava ocupado com alguma coisa e nada daquilo observava. Assim, uma eternidade se passava até eu escolher minhas duas revistas mensais. Aquele ritual se repetia sempre, proporcionando-me um prazer indescritível.
Depois, com o coração acelerado, querendo afoitamente sair pela boca, e, com os pés voando, pelas calçadas, com os olhos brilhantes, de puro contentamento, levava cuidadosamente para o aconchego do lar aquele inestimável tesouro. Ao chegar à velha e querida casa, colocava cuidadosamente os valiosos presentes sobre a mesa da sala de estar, cujo único aparato que se via era um asmático rádio de válvulas Philco, sentado tranquilamente sobre uma tosca mesinha, que, irascível e rabugento, funcionava quando lhe apetecia, e, com o pensamento dando voltas e mais voltas, dirigia-me incontinenti ao lavatório a fim de livrar as mãos de bactérias e impurezas. 
Após isto, com a respiração ofegante, pegava novamente o embrulho, abrindo-o devagarzinho. Não lia logo de pronto os Gibis! Não! Durante alguns momentos, ficava olhando o esmero artístico de cada capa da revista, enxergava nitidamente os seus contornos, vasculhava a esmo, todavia com sofreguidão, o seu interior, embrenhando-me perdidamente naquela selva espessa e macia. Somente após minutos angustiantes de propositada espera, é que eu começava verdadeiramente a desvendar suas estórias fantásticas. Ah! Que alegria estonteante!
Cansada e febril, com o cocheiro, frenético, animando os cavalos a correrem mais e mais, a carruagem do tempo traz-me de volta, quase ileso, ao presente, ainda com a mente povoada de gratas e perdidas recordações.
Sem saber ao certo o porquê, tenho pena da garotada de hoje, que lê pouco ou quase nada, plugada praticamente 24 horas por dia, na Web, na maioria das vezes desfilando bobagens e vaidades, pelas redes sociais, esquecendo-se completamente do mundo real, este que passa veloz como um raio - e que só nos damos conta disso, infelizmente, ao envelhecermos.
E, claro, por serem modernos, estes garotos atuais nunca saberão do azougue mental que os Gibis eram capazes de fazer, conosco, e do fascínio gigantesco que eles nos proporcionavam, fortalecendo, a cada abençoado dia, nossas asas, que queriam a todo custo distender-se logo para desbravarem o horizonte infindo, sempre nos impulsionando para voos bem mais altos e audaciosos.
Avelar Santos (Professor e Escritor)

1 comentários:

Francisco Santos disse...

Que nostalgia! Maravilhoso esses textos senti-me dentro dessa crônica.