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quarta-feira, 13 de setembro de 2017

DEPRESSÃO, ANSIEDADE E SUICÍDIO NA GERAÇÃO SMART

*Por Dr.Martin Portner
A tragédia que se abateu sobre a família Borges no Acre é incompreensível sob todos os aspectos. Primeiro, Bruna, 19 anos, cometeu suicídio, transmitindo seu calvário pelo Instagram. Os pais, em agonia e não tendo como suportar a dor da perda da filha — que para todo o sempre vai permanecer gravado na rede —, também recorreram ao suicídio. Pouco tempo depois foi a vez do ex-namorado tentar tirar a vida.
Trata-se de um problema que nunca foi adequadamente compreendido pela humanidade e pela ciência — a depressão. A ciência, aliás, mostra que a incidência de depressão nos muito jovens — vamos falar dos que estão nos últimos anos do ensino fundamental até o ensino médio — tem aumentado. De 2010 para cá, a curva desse transtorno que inclui episódios de excessiva tristeza e ansiedade incontrolável inclinou-se bruscamente para cima.
Estamos na modernidade. Temos acesso a praticamente tudo que precisamos. Qual a razão desse problema? Estudiosos debruçam-se sobre a matéria. Ninguém sabe ao certo, mas algumas pistas começam a surgir.
No centro do problema está a era digital. Os jovens de hoje nascem com smartphones à sua volta. Uma mãe descreveu que embora seu filho ainda não saiba caminhar, ele já sabe fazer o swipe que aciona o celular. De fato, boa parcela dos jovens brasileiros já possui um celular antes dos dez anos de idade. O problema é que embora esses jovens estejam sempre conectados pela rede mundial, eles se encontram face a face cada vez menos.
O fato de encontrarem-se socialmente cada vez menos é a provável explicação para o fato de os gráficos mostrarem que eles ficam (ou namoram) menos e têm menos relações sexuais do que jovens da mesma idade antes de 2010. O smartphone é seu companheiro inseparável. Contudo, paradoxalmente, muitos desses jovens sentem medo de serem deixados para trás. O fato de perceber que parte de seus amigos se reúne socialmente e não ter sido incluído pode, em jovens com recursos mentais desprovidos de resiliência, afundá-los na tristeza.
Também se descobriu que eles dormem menos horas. O sono é fundamental porque é nesse período que o cérebro grava em seu disco rígido os eventos experimentados no dia que se encerra. Mas o que vem primeiro? A depressão afugenta o sono ou este traz como resultado depressão e ansiedade?
É provável que uma espécie de sobrecarga resulte na interferência com os circuitos neurológicos. Vamos montar o quebra cabeças. O uso do smartphone requer dedicação. Trata-se de somar concentração na tela e agilidade nos dedos. Habitualmente temos mais de uma janela aberta (Facebook e Whatsapp, por exemplo) e, em cada um deles, janelas diferentes para grupos ou usuários distintos. É comum perceber que enquanto se digita para um já se organiza na mente o que vai ser digitado para outro. Tudo isso escutando o beep das mensagens entrando ou a vibração nas mãos informando a necessidade de sermos mais ágeis. Esse sistema sobrecarrega o número de neurônios (as células do cérebro que processam informações). Para não nos deixar na mão, o cérebro se utiliza do recurso pelo qual ele “toma emprestado” neurônios de outras áreas. Qual é a área imediatamente mais à mão? O cérebro chamado de social, cujas células estão desocupadas — e em breve ficarão mais ainda na medida em que suas células emprestadas para as operações cognitivas não mais retornam à função original.
Dentro de algum tempo, ambos — o cognitivo e o emocional — estão sobrecarregados. Instala-se um funcionamento que não está previsto pelo código genético. No DNA, as instruções são claras: neurônios cognitivos e emocionais realizam, cada um, suas respectivas funções. A soma delas permite, por exemplo, qualidades como a resiliência.
Estamos diante de um dilema. A incorporação dos smarts no quotidiano não tem mais volta. Mas se continuarmos nessa espiral, seremos inteligentes na conexão virtual com os outros, mas incapacitados para enfrentar os desafios da vida. Este será o grande desafio da ciência moderna para a geração smart. 
*Dr. Martin Portner é Médico Neurologista, Mestre em Neurociência pela Universidade de Oxford e especialista em Mindfulness. Há mais de 30 anos divide suas habilidades entre atendimentos clínicos e palestras, treinamentos e workshops sobre sabedoria, criatividade e mindfulness. 

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