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quinta-feira, 28 de setembro de 2017

O REISADO, POR CHARLES NUNES DE MELO


O reisado era uma tradição forte em Camocim nos saudosos anos 1970. O grupo de pessoas saia finalzinho da noite e início das madrugadas nos meses de janeiro, pedindo donativos de porta em porta para a festa de Reis realizada no dia 06. 
A cantiga era a forma de comunicação entre os participantes dos grupos e os donos das casas, que geralmente estava dormindo naquela hora. As cantigas eram as mais engraçadas e criativas possíveis e o repertório era bastante extenso. Existiam cantigas para quem colaborava e havia cantos para quem não ajudava.
O trajeto do cortejo, composto por pessoas vestidas de roupas coloridas portando instrumentos musicais, começava no salão paroquial e percorria as ruas no entorno da Igreja Matriz. O quadrilátero formado pelas ruas 24 de maio, José de Alencar, General Tibúrcio e Santos Dumont era o preferido dos participantes, pois ficam mais próximos do início da caminhada como também morava algumas pessoas mais abastadas da cidade naquela época. 
Quando a turma estava mais disposta, estendia o trajeto até a rua Humaitá, Duque de Caxias e Alcindo Rocha. Os bairros da periferia, como o Cruzeiro, Praia, Brasília, Olinda e outros, nunca foram visitados, pelos dois motivos citados acima.
Ainda sobre as músicas, uma delas era cantada para os moradores que não abriam a porta de jeito nenhum, os chamados sovinas, miseráveis, mão de vaca etc. A música era esta:
“Vou me embora, vou me embora
Pois aqui não volto mais
Esta casa é maldita
Aqui mora o satanás” 
Em uma noite, no ano de 1977, as pessoas não estavam colaborando muito. Batemos em várias portas, mas poucas abriram, e as que colaboraram não foram tão generosas.   Quando já estávamos nos preparando para retornar para nossas casas, aconteceu um fato deveras interessante e engraçado que guardo na memória.
A lua estava clara e a porta de uma residência na rua Santos Dumont, a conhecida rua do Sol, era a última tentativa naquela fracassada noite. Era costume cantarmos cinco músicas antes da última, que tanto poderia ser de agradecimento ou de descontentamento como essa que escrevi anteriormente, pois dependia circunstâncias do momento.   
Cantamos, cantamos e nada da porta ser aberta. Quando já havíamos cantado quase a música inteira e nos preparávamos para entoar o último verso: “Aqui mora o satanás”, no exato momento de pronunciar a palavra ”satanás”, eis que o sonolento morador abriu a tão sonhada porta. Dessa forma, a música ganhou uma nova versão devido a situação inesperada. 
Ficou então assim: Aqui mora o....seu Luiz. 
O Zé Rocha, um dos nossos colegas e talvez o mais gaiato, teve a coragem de falar “seu Luiz” após um silêncio provocado pelo susto diante da presença do homem, que nos deixou boquiabertos e nos impediu de chamá-lo de satanás. Ainda bem que surgiu aquela alma caridosa com aquela solitária voz (depois seguida por nós) para salvar a nossa pele, pois teria sido uma tremenda injustiça e deselegância, naquele momento, fazer essa desfeita com a pessoa que iria nos ajudar. 
Também, se a música tivesse sido cantada na versão original e o morador tivesse ouvido, com certeza, teria havido uma debandada geral com direito a uma tremenda correria. Porém, fomos salvos por um triz pelo nosso corajoso colega que teve essa presença de espírito em pronunciar o nome do Seu Luiz na hora exata e numa rapidez impressionante.
Após esse episódio, saímos da residência todos sorridentes pela oferta vultosa, até certo ponto, e por tudo que aconteceu na casa do Seu Luiz. Fomos ao salão paroquial onde trocamos de roupas, para em seguida irmos para nossas residências e esperarmos pela próxima noite de reisado.  

Charles Nunes de Melo

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