segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

GRANJA: PMS DO RAIO AFASTADOS E INVESTIGADOS POR TORTURA

Vinte e três policiais militares estão respondendo a procedimentos na Controladoria Geral de Disciplina dos Órgãos de Segurança Pública e Sistema Penitenciário (CGD), os quais apuram transgressões disciplinares por tortura. 

Além desses processos administrativos, 10 PMs têm contra si a instauração de apurações sobre possíveis crimes de homicídios dolosos - quando há intenção de matar. 
Segundo a CGD, todos esses processos estão em fase de instrução. "Ressalta-se que referida instauração importa no afastamento do exercício da função policial, segundo determina a legislação vigente", pontuou a Controladoria.

Enquanto os números e processos vão se amontoando, Ana Ludmila só aguarda uma palavra: Justiça. Era tarde do dia 29 de janeiro de 2020, quando seu sobrinho Antônio José da Costa (foto), de 23 anos, foi abordado por uma equipe do Comando de Policiamento de Ronda e Ações Intensivas e Ostensivas (CPRaio) no município de Granja. 

Os militares foram averiguar uma denúncia de tráfico de drogas praticada por um homem conhecido como 'Tonhão Chinês'. A família, desde o princípio, argumenta que, embora Antônio José fosse conhecido por 'Tonhão', o codinome 'Chinês' se refere a outra pessoa. Apesar disso, os PMs encontraram o rapaz à frente de sua casa e apreenderam com ele 20 sacos plásticos de dindim, um tomate e 0,01g de maconha. A legislação considera porte para consumo 1g de psicoativos.

Os policiais relataram em Boletim de Ocorrência que foi dada voz de prisão a ele e, em seguida, entraram na sua casa a fim de realizar buscas e pegar seus documentos. Os militares afirmaram que Antônio José foi algemado numa sala da casa e, enquanto faziam buscas no local, ele fugiu. Ao procurarem no quintal, encontraram Antônio dentro de um cacimbão batendo os pés.

Com essa imagem, eles disseram que o retiraram do local e tentaram ressuscitá-lo. Sem sucesso, Antônio foi levado a uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e, lá, foi constatado o óbito. Mas nem todo o relato foi comprovado de forma prática. A narrativa dos policiais foi refutada a partir de um laudo da Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce) .

A perícia constatou que "os achados não se mostram típicos do afogamento verdadeiro ou do afogado úmido". A perita concluiu que Antônio José morreu por asfixia mecânica em razão de "obstrução das vias respiratórias por aspiração em meio líquido-pastoso contendo restos de alimentos (vômitos)". No laudo pericial, ainda foram constatadas escoriações nos punhos, nos cotovelos e no ombro esquerdo, além de equimose (mancha de sangue) na face.

"A gente quer Justiça. Meu sobrinho morreu de graça, por nada. Foi a pura crueldade desses policiais. A gente não entende por que eles fizeram isso, qual o motivo, pois não tinha precisão de eles fazerem isso, foi uma covardia", aponta a tia da vítima, ao ressaltar que a família, desde então, não conseguiu ter paz, nem saúde, só imaginando "o sofrimento que ele passou".

Testemunhas relataram à Polícia Civil que, um dia antes, PMs do mesmo grupo teriam agredido Antônio José com chutes e o submetido a sessões de asfixia por meio de um saco plástico. Os acusados pelo crime são o cabo Adalberto Nascimento Dias e os soldados Edmundo Ferreira da Costa Neto, Marclésio Ferreira da Silva e Pedro Dias dos Santos. Eles foram afastados pela 1ª Vara da Comarca de Granja e ficaram proibidos de entrar em contato com testemunhas e familiares da vítima.

Em nota, a defesa dos policiais militares, representada pelo advogado Roberto Queiroz, afirmou que eles estão "bastante tranquilos e conscientes de sua inocência". "Todos possuem uma ficha funcional íntegra e sempre atuaram dentro dos parâmetros legais, dessa forma, estão ainda mais seguros e dispostos a demonstrar sua inocência, que restará comprovada ao fim do trâmite dos procedimentos investigatórios", escreveu.

Por Tadeu Nogueira 
Fonte: DN

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