sábado, 6 de janeiro de 2024

O ATELIÊ DE RAIMUNDO CELA EM CAMOCIM

Quem passa pela Rua General Tibúrcio, entre as ruas Santos Dumont e 24 de Maio, mal sabe que aqueles casarões já abrigaram a casa e o ateliê do renomado artista plástico cearense Raimundo Cela. 

Nascido em Sobral em 19 de julho de 1890, já aos quatro anos de Raimundo, a família se transferiu para Camocim, por causa da profissão do pai, o espanhol José Maria Cela Mosquera. 

Ele era mecânico e veio trabalhar na estrada de ferro. A mãe era a professora sobralense Maria Carolina Brandão Cela, que garantiu o ensinamento das primeiras letras ao futuro artista. Segundo estudiosos da vida e obra de Raimundo Cela, a transferência da família foi duplamente benéfica para todos:

No novo meio, Camocim, no qual Cela passou a viver, no aspecto climático, físico e humano, ambiente onde Cela completaria sua infância e adolescência, diferente do anterior, deve ter tocado a sensibilidade, aberta à vida, de Raimundo Brandão Cela. 

Em Sobral, o calor era agressivo, o horizonte geologicamente fechado. Em Camocim, o clima ameno e suavizado pela brisa e perfume marinho. [...] As praias bonitas com seus recantos e ilhas, os barcos insinuando viagens longínquas, sonhos, desejos e o porto com seu movimento de chegada e saída dos barcos. O horizonte abria-se para tudo. O caminho se fazia, se mostrava para todos os lados. Camocim aconteceu na sua vida

Raimundo Cela saiu de Camocim para estudar em Fortaleza e, posteriormente, Rio de Janeiro, onde se tornou engenheiro geográfico. 

De lá, vai para a Europa em 1920 para aprimorar seus dotes artísticos na França e Espanha. Com problemas de saúde, retorna ao Brasil em 1922 e o local mais aprazível para se cuidar foi Camocim. 

Preferiu ir para Camocim onde tinha a família perto. Lá, Cela, com a qualificação de engenheiro, assumiu a direção da usina que gerava energia elétrica para a cidade”.  

A tal usina era a Companhia de Força e Luz de Camocim - CFLC, que fica na esquina da rua General Tibúrcio com 24 de Maio. Afora os trabalhos da usina, Raimundo Cela dedicou-se à sua obra em seu ateliê, que ficava atrás dela. 

Fora dos meios artísticos, pensaram até que ele tinha morrido. Foi redescoberto por Otacílio de Azevedo, que esteve em Camocim em 1933 e se maravilhou com o resultado de dez anos de atividade do pintor no município. Cela casou-se em Camocim, em 1934, aos 44 anos, com a amazonense Eunice Medeiros, de 21. Mudou-se novamente para Fortaleza, em 1938, com a família. Em 1945, muda-se novamente para o Rio de Janeiro, onde veio a falecer em 1954.

Texto extraído do Livro "Miolo de Pote", de Carlos Augusto P. dos Santos 

Fonte do texto: FIRMEZA, Nilo de Brito. (Estrigas). Raimundo Cela. A arte e o tempo. In: Raimundo Cela. 1890-1954. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 2004.