sábado, 27 de abril de 2024

O ÚLTIMO DOS ALFAIATES

 Por Inácio Santos* 

Ora pois, lá se vão trinta anos, e num lampejo de memória vejo fatos que se impregnaram em minha mente de menino;

Saudosas reminicências.

Lembro-me do jeito simples e bonachão de seu Arthur. (Mestre Arthur); era assim que todos o chamavam. Alfaiate de profissão, coisa raríssima nos dias de hoje.

Foi nosso vizinho ali na Rua da Independência, hoje já tão diferente.

Ainda nos tempos em que as mudanças eram feitas em carroças, tração animal; Eis que numa tarde estávamos a brincar; eu, meus irmãos, e uma turba de meninos, quando a frente da casa vizinha a nossa, encosta o carroceiro com sua carroça e dentro desta um monte de tralhas e cacarecos entulhados.

Viam-se bancos de potes, potes, cadeiras (daquelas de assento de couro) uma cama velha desmontada; algumas caixas de papelão utensílios de cozinha, panelas encardidas; (pelo o uso da lenha e carvão). Mas alguma coisa naquele emaranhado, chama a atenção da molecada, que acerca-se da carroça, fazendo aquela algazarra própria de criança. A minha irmã, mais ou menos de seis anos, grita de repente puxando a barra-da-saia de minha mãe.

Tava toda a vizinhança na calçada naquela tarde, pois uma mudança era sempre novidade.

Manhê! Manhê! Olhe! Um santo achando graça.... Repete alucinadamente minha irmã. É quando todos se dão conta que do meio das tralhas e cacarecos, sobressai-se uma busto de um homem risonho que depois vim a saber que era nada mais, nada menos, que um manequim, peça de alfaiataria indispensável a todo alfaiate que se preza.

-E foi assim que mestre Arthur e família chegaram em nossa rua.

Tudo arrumado com ajuda de todos, e com o passar dos dias, Mestre Arthur montou sua alfaiataria, ali mesmo na sala. Simples como ele próprio. Uma velha ‘‘Singer’’ a pedal. (Nesse tempo a nossa energia era proveniente da Usina de força local, ainda não se falava em equipamento elétricos); O famoso manequim no canto da sala, foi durante vários dias o xodó da molecada, que não se cansava de olhar, pegar, pois aquilo era para todos nós um verdadeiro deslumbramento.

Mestre Arthur era na época um homem de estatura mediana, meio encurvado, talvez pelo o costume de estar debruçado a maioria do tempo sobre a velha maquina de costura, aparentava ter uns cinqüenta anos de idade, pele morena, bem acentuada, cabelos já quase grisalhos e um plácido semblante no rosto que logo a todos cativava.

Estava sempre de bom humor, mesmo face às dificuldades. Pois era pobre, tinha uma família (esposa e filhos) e todos viviam e dependiam para o sustento, aluguel, roupas, etc... Da sua profissão de alfaiate.

Exímio profissional, Mestre Arthur confeccionava paletós (ternos) de encomendas, sob medida e gabava-se de jamais ter perdido um corte. Ainda na época existiam pessoas que usavam ternos. Hoje somente nas grandes cidades os executivos usam tal vestimenta e já os compram prontos em lojas de griffes modernas. Porém já se escasseavam os pedidos e encomendas, e por várias vezes, o ouvi dizendo que houvera tempos em que ele não dava conta de atender a sua clientela, visto que muitos eram os fregueses que o procuravam. Mesmo assim Mestre Arthur não desanimava e entre uma e outra encomenda, matraqueava sua velha Singer, tirava medidas com sua surrada trena, e fazia acabamentos à mão, com agulha, Linha e seu inseparável dedal.

Logo Mestre Arthur popularizou-se não só com a vizinhança, mas também com a meninada que adorava suas brincadeiras e estórias.

‘‘Tinha aquela de São Jorge que chupava caju lá na lua e atirava as castanhas na cabeça dos meninos’’, e ao dizer isto Mestre Arthur, fazia um gesto tipo cafuné que produzia um estalido na cabeça da molecada.

Nesse tempo quando ainda não havia a televisão, de noite as crianças iam brincar na rua, que por sinal era de terra. (Areia frouxa) não havia calçamentos, os meninos brincavam de esconde-esconde, bandeirinha, mãos-ao-alto... As meninas cantavam cantigas de roda enquanto os adultos colocavam cadeiras na calçada, formavam círculos e se punham a bater papo, conversas que variavam desde o trivial as mais inusitadas estórias.

Sempre nestas oportunidades eu dava um jeito de me esquivar de mansinho das brincadeiras com a molecada, e sentava-me ali quietinho no meio dos mais velhos, ficava a escutar suas conversas, só escutando, pois menino naquela época não podia dá opinião era falta de respeito, mas eu não me importava e quedava-me a ouvir atentamente, coisas da qual não me arrependo, pois muito do que aprendi daquelas histórias,me ajudaram em momentos difíceis da minha vida, e ainda hoje me servem de lição.

Depois de alguns anos Mestre Arthur, mudou-se para outra casa, mas continuou o seu mister de alfaiate. Agora fazendo outras peças; calças, camisas, etc.

Pois era o que sabia fazer, e mesmo tendo se aposentado o dinheiro que ganhava era pouco e precisava continuar pedalando sua velha Singer para ajudar a completar o orçamento familiar.

Católico praticante, Mestre Arthur pertencia à ordem do Santíssimo Sacramento, associação Pia da igreja católica;

E assim foi Mestre Arthur, tocando sua vidinha simples e pobre, mas com certeza honesta e feliz.

Mestre Arthur faleceu, já faz alguns anos, morreu em seu leito rodeado pela família e pelos amigos que tão bem soube cativar e preservar durante toda sua vida.

Recordo-me com saudade, desses tempos já idos.

Ficou marcada em minha infância a imagem desse homem (Mestre Arthur) que com sua simplicidade, desprendimento, amizade e nobreza, mostrou-me, que a vida é um eterno porvir de esperança e amor. ‘‘ Mestre Arthur’’.

*Radialista, Compositor, Escritor e Presidente da Academia de Ciências, Artes e Letras de Camocim