Durante a minha infância, eu conheci os mais atraentes exemplares de carros de brinquedo fabricados artesanalmente. Feitos de madeira, eram cópias fiéis dos carros verdadeiros, quer fossem jipes, caminhões ou caminhonetes.
Entretanto, o que mais me faz admirar quando faço uma retrospectiva e minha memória alcança essas maravilhas, é lembrar que, em sua maioria, eram construídas por alguns poucos jovens artesãos, comprovadamente no auge de sua adolescência, quando se incluíam dentre os principais usuários de suas criações.
Lembro-me, especialmente, do principal fabricante desses brinquedos, na minha pequena Camocim, quando tive a felicidade de conhecer diversos modelos copiados em seus mínimos detalhes, como a pequena caminhonete baú, da Companhia de Cigarros Souza Cruz, apelidada de cigarreira, ou o caminhão-tanque que distribuía água nos trabalhos de recuperação de estradas de rodagem, durante a seca de 1958, que assolou todo o Nordeste.
Particularmente, também possuí o carro que ficou imortalizado em minha memória, cujos detalhes, caprichosamente talhados na madeira, ainda me embalam as lembranças daquelas brincadeiras de infância.
Era um caminhão Fargo, cópia perfeita do seu similar de tamanho normal, fabricação Canadense, ano 1948, que pertencia ao Raimundo Serrote. Quantas lembranças do seu molejo perfeito, resultado da ação de suas molas fabricadas com as fitas de metal, que reforçavam os caixotes das embalagens de mercadorias.
Quantas vezes a imaginação me levou a longas e perigosas viagens, pelos areais secos ou pelas estradas lamacentas, beirando os precipícios e desafiando as pontes improvisadas. Inúmeras cargas altas, compostas por caixas de fósforos vazias, foram transportadas, beirando as lagoas e através dos extensos percursos de meus quintais e das ruas calmas de minha infância.
Muitos “pregos” imaginários, foram superados com o socorro dos outros “caminhoneiros”, que também participavam da doce angústia daquelas batalhas.
Mas, os tempos mudaram e, nos dias de hoje, as emoções das brincadeiras são, também, diferentes. Os pequenos carros, fabricados em série, não guardam, em sua maioria, os detalhes de uma devida originalidade.
A facilidade com que as fábricas de brinquedos produzem as suas réplicas, pouco originais, não estimula a criação, através da improvisação, e não conduz à invenção com poucas condições disponíveis.
Nas cidades interioranas, de décadas passadas, a meninada sentia enorme necessidade de criar e improvisar.
Conta-me o amigo Dário Cordeiro de Oliveira que, durante a sua adolescência, a passagem de um circo, pela nossa Camocim, contagiou o seu grupo de amigos com um “número” que era apresentado por ocasião do espetáculo.
Tratava-se do Globo da Morte, onde o motociclista volteava com velocidade incrível dentro do globo, chegando, inclusive, a percorrer a calota da sua parte superior, de cabeça para baixo, amparado pela força centrífuga.
É claro que os personagens da versão tupiniquim não possuíam motocicletas e tampouco tinham acesso ao globo de aço, todo original, mas aí é que falaram mais alto a criatividade e a improvisação: no quintal de sua casa foi escavado um grande buraco, de forma circular e paredes internas inclinadas, tal e qual uma rampa íngreme.
As bicicletas substituíram as motocicletas e os artistas entraram em cena. As quedas foram inúmeras, porém, não há dúvidas de que valeu a pena.
A brincadeira de imitar as estrelas circenses durou até a chegada das chuvas, quando o “Globo da Vida” foi transformado num grande buraco de águas barrentas.
Mas, como “o espetáculo não pode parar”, o novo desafio era o mergulho de ponta, nas águas espumosas, onde flutuavam os compostos mais leves do monturo acumulado na redondeza.
Uma rápida limpeza e estava pronta a “piscina”, para as novas modalidades de exibições e disputas, onde todos se imaginavam verdadeiros campeões, tornando suas vidas mais alegres, superando a falta de alternativas e fazendo parecerem reais os mais distantes sonhos de meninos travessos.
Com o passar dos anos, aqueles artistas vadios se tornaram cidadãos e, como tais, foram assumindo os seus espaços e consolidando os seus caminhos, retificados pelas lições de vida.
Do “Globo da Vida” e dos carros de madeira, fabricados artesanalmente, restaram, além das lembranças, os intrínsecos ensinamentos sobre a arte e a criatividade dos meninos das cidades interioranas de antigamente.