sábado, 31 de janeiro de 2026

À MEMÓRIA DO NOSSO TREM

Por José Maria Trévia 
(Escritor Camocinense)

Após alguns anos, levado por pensamentos saudosos, eu volto a caminhar pelas veredas que, um dia, já foram os caminhos do trem. 

Olho para trás e tropeço nas lembranças que insistem em antecipar-se à minha caminhada; recomponho-me do tropeço e, à minha frente, surgem visões de trilhos por onde os trens não passam mais; revolto-me, mas não denuncio, porque não me restam mais esperanças. 

Enlevo-me e sonho com Estações, e contemplo, com tristeza, as suas ruínas e restos de seus alicerces que, em um dia distante, já foram sustentáculos e hoje não passam de reprimendas aos seus algozes; alicerces que já foram festejadas esperanças e, hoje, crepúsculos de sonhos desfeitos. 

Em seu silêncio, as Estações abandonadas choram a ingratidão dos insensatos e, pacientemente, esperam o trem que não retornou de sua última viagem. 

A cada início de noite, só as andorinhas, que confirmam o abandono, voltam para o aconchego dos ninhos nos frechais, o que torna ainda mais envolvente o abraço nostálgico de uma solidão profunda. 

As linhas paralelas desapareceram sob a relva e arbustos, ou foram surrupiadas pelos abutres dos despojos, ficando, apenas, os aterros piçarrados em forma de caminhos, que não levam a lugar nenhum, ou como as últimas trincheiras de uma guerra perdida. 

Seus pontilhões, estes não sucumbiram diante das ações de rapinagem, nem a ferrugem teve o poder de lhes corroer o vigor das entranhas. São testemunhas vivas e provas incontestes da genialidade dos responsáveis pela construção de obra tão majestosa, onde mais de um século contempla as estruturas de ferro indiferentes à oxidação, que lhes rodeia, mas não lhes atinge. 

Medito, observando os cravos de ferro perfilados, sem falhas, sequenciados, equidistantes, que a longevidade de um século inteiro de intempéries não conseguiu desgastá-los e impedi-los de exercer a sua função de unir. 

Resignados, os velhos pontilhões permaneceram ali, durante longos e produtivos anos, e continuam lá, como que aguardando novas ordens de suportar os trens de ferro sobre os seus costados. Mas, eles não virão. Seus caminhos de ferro foram arrancados e o grito rouco da Maria-fumaça, de chegada ou de partida, foi silenciado. 

Os sinos das Estações,... ah! Aqueles pingentes de bronze... Eles foram arrancados de suas hastes de sustentação. Assim, algum louco ou sonhador não agitará o pêndulo de ferro para anunciar a falsa partida de quem nunca mais voltou. Imagino escutar o apito desafinado de uma Maria-Fumaça e afasto-me, repentinamente, de seu caminho. 

Observo, buscando-a, mas não a vejo, aguardo sua passagem, todavia, ela não aparece. Entretanto, um deslocamento de ar expulsa as folhas secas que recobriam o inalterado aterro de piçarra. Refaço-me de mais um delírio provocado pelas sutis lembranças e volto a trilhar aquele caminho que não leva a lugar nenhum. 

Às vezes, surgem-me, sob os pés, velhos e pubos pedaços de madeira, resquícios dos que foram sólidos dormentes, não raro marcados a fogo pelas brasas desertoras da caldeira de alguma Maria Fumaça, durante a sua passagem.

Do ramo secundário, da trilha bifurcada, surge o caminheiro solitário, que olha sem entender a minha presença naquelas paragens. Cumprimenta-me, mas, não obstante a sua visível curiosidade, esquiva-se do possível diálogo, e afasta-se com seus pensamentos, fustigando o animal com a sua carga de lenha, empilhada nos cambitos da cangalha.

O cansaço bate sobre as minhas costas e o sol escaldante não me estimula a prosseguir. Dou meia-volta e inicio uma nova caminhada, de volta para casa, onde dormirei eternamente, pondo um fim aos meus pesadelos.

Texto extraído do livro "Memórias de um Saudosista"