Raiou um novo dia!
Da beleza do cristal da Boêmia, a manhã, cheia de luz, reverbera paz pela cidade.
No ar, a fragrância dos jasmins entorpece os sentidos, reacendendo o pavio de perdidas recordações, que, febris, afloram à mente na ânsia louca de serem vividas novamente.
Encostado na amurada do balaústre, sombreado por coqueiros, no início da orla, o ancião deixa que os olhos naveguem pela imensidão do mar, sem pressa, parando, aqui e ali, para apreciar a paisagem do seu quinhão do paraíso, onde nascera, com o verde dos mangues tingindo de cor suas retinas cansadas.
No céu, de radiante azul turquesa, as gaivotas brincam de pega-pega, voejando baixo, pelos molhes, emitindo gritos estridentes, que ecoam além, satisfeitas por que o repasto matinal está mais do que garantido, na maré vazante, onde cardumes de tainhas ficam à mostra, à flor da água, como se quisessem bronzear-se ao sol, facilitando, assim, a vida dessas belas aves.
E a baladeira do tempo estica as horas, cujo engaste de prata, que regula cada segundo que passa, não é notado pelo idoso.
Dentro dele, nesse momento, corre ligeiro o trem estelar, palmilhando milhas e milhas de volta ao passado mais distante, colhendo, em perfumados buquês, pessoas queridas, que, uma a uma, foram descendo, nas estações, muitas delas sem ao menos se despedirem, deixando, com isso, um vazio enorme que se aprofunda no peito.
E, por mais que ele se esforce para deter a fonte borbulhante, que teima sulcar seu rosto, nada impede que o riacho da saudade vá aumentando gradativamente de volume, tomando conta de tudo.
Sem se aperceber direito, o velho retorna sofridamente ao presente, com uma estranha angústia a sufocar-lhe a respiração, embrenhando-se mais e mais nas matas da alma.
Nesse ínterim, o seu cachorro vira-lata não arredou pé dali, nem tampouco latiu ou fez qualquer gesto para chamar a sua atenção, como se entendesse tudo aquilo que se passava com o seu dono, permanecendo quieto, fingindo dormitar.
Depois que um barco de pesca passa ao largo, singrando, majestoso, as ondas calmas da baía, com passos incertos, o homem ruma para casa.
No caminho, vê crianças brincando, correndo pelas praças, felizes, ausentes por completo do mundo real, descortinando universos imaginários, cuja imagem enternece seu coração, enchendo-o de amor paternal por aqueles pequeninos, que, na sua inocência, propagavam a alegria esfuziante da vida.
Desanuviados os pensamentos mais turvos, que ultimamente teimavam em acorrentar-lhe o espírito, ora alquebrado pelo galope voraz da carruagem dos anos, e pela solidão, fiel companheira, chega finalmente ao seu lar.
À entrada, a esposa recebe o marido com um sorriso repleto de margaridas, que trazem um lampejo diferente ao seu olhar, como se dissesse, embora sem nada falar, que sentira tanto sua falta, perguntando-lhe, ansiosa, pelas novidades.
No entanto, ele nada diz. Dirige-se, por fim, ao pequeno jardim, aboletado de plantas, para sentir o aroma das roseiras, sabendo que sua amada esposa não desgrudara um só instante os olhos dele.
Afogueado, com mãos trêmulas, pega o retrato, que estava numa mesinha da sala, contemplando, com desvelo, aquele rosto belo, cristalizado para sempre naquela redoma, e, sentando-se na sua velha cadeira de balanço, pouco a pouco se dá conta que a penumbra invadira, sorrateira, cada canto.
E a noite chegou!
*Professor e Escritor Camocinense
