E as belas cores da radiosa manhã, que refulgiam, ao longe, no horizonte, foram, aos poucos, descortinando o milagre sublime da criação.
De repente, as ruas, que andavam desertas há tempos, ganharam mais vida, enchendo-se de pessoas que saudavam, alegres, um novo amanhã.
O pesadelo acabara!
Depois de alguns anos de enclausuramento, em casa, temendo o contágio do vírus mortal, sofrendo indizíveis angústias, eis que podiam tentar ser felizes, novamente, absorvendo a magia das coisas simples, que nos rodeiam no cotidiano, tão esquecidas devido à pantera da aflição aguda que nos ameaçara, felina, mostrando-nos os afiados caninos brancos, que nos amedrontaram a alma, derramando sorrisos, como se crianças elas fossem, tirando o futuro da corda de equilibrista, em que, perigosamente, ele se encontrava, meio que paralisado, trazendo-o para mais perto do coração, onde os sonhos germinam, buscando esquecer, de vez, aquela noite tenebrosa.
Após uma longa espera, em que o tic tac do relógio, misturado ao tédio, havia anestesiado os sentidos, na qual muitos testaram seus limites emocionais, por conta da voracidade da doença que abatia, aqui e ali, a cada dia, amigos e entes queridos, cientistas israelenses, finalmente, haviam descoberto uma vacina contra esse mal, abrindo, assim, uma trilha mais segura para todos andarmos no cipoal de tantas incertezas que se agigantara à nossa frente.
E o que se observou, nesse interregno, foi o florescer da espiritualidade, da busca intensa por Deus, feita pelos homens de boa vontade, que, muito embora muitos transidos pelo medo, acalentavam o desabrochar da flor da esperança do surgimento de uma era de paz, para a humanidade, sob a graça e infinitas bênçãos dos céus.
O badalar dos sinos ecoava, solene, pelos ares, anunciando que chegara a hora de readentramos os templos para agradecer ao Senhor por Sua infinita misericórdia, repletos de gratidão e de completa humildade franciscana.
Durante esse período pandêmico foi necessário, para tanta gente, repensar valores, aparar as arestas, endireitar certas veredas, mergulhar, profundamente, no sagrado, na ânsia de encontrar respostas aos questionamentos que pudessem dar maior sentido à existência.
E a poesia do amor rompeu barreiras, a solidariedade atravessou os sete mares, chegando aos confins dos continentes, irmanando os seres humanos num abraço colossal como jamais ocorrera antes.
Duro foi o aprendizado por que passamos. Afinal, foi preciso passarmos pela escuridão da noite para vermos o esplendor da aurora.
Doravante cada um de nós buscaria semear o bem, estreitar os laços de amizade, esquecer rancores cinzelados nos monólitos do passado, perdoar aqueles que nos magoaram, amar de forma incondicional à família, ser mais tolerantes com o próximo, lançar, enfim, ao mar, a rede da unidade universal em torno da Mãe Gaia, permitindo-lhe renascer, revigorando sua complexa e grandiosa teia.
E a luz se fez, refulgente, como nunca se vira antes!
E o segundo sol brilhou, enfim, sobre a Terra!
*Professor e Escritor Camocinense