domingo, 9 de agosto de 2026

O VELHO CANOEIRO

Por José Maria Trévia 
(Escritor Camocinense)

Adornada pelos coqueirais que crescem livremente em busca dos céus, a cidade de Camocim está situada à margem esquerda do estuário do Rio Coreaú. 

Na margem oposta, à sua frente, distando algumas centenas de metros, repousa, eterno e imponente, aquilo que o camocinense habituou-se a chamar de “Outro Lado”, pontuado pelo verde de algumas ilhas dos frondosos manguezais. 

Em tempos outros, a travessia desse espelho d’água era feita, exclusivamente, pelos pequenos barcos ou canoas à vela, transportando pessoas e suas modestas cargas, num costumeiro intercâmbio dos que levavam para o mercado a sua produção, agrícola ou pecuária, e retornavam com outras mercadorias ali adquiridas, a fim de suprir as suas necessidades.

 Como sinais do progresso e adoção de novas tecnologias, nas últimas décadas surgiram alguns pequenos barcos a motor, como meio de transporte dos habitantes nas localidades situadas no Outro Lado. Todavia, até os dias de hoje, as canoas à vela continuam a fazer, ininterruptamente, seus caminhos, ligando a nossa cidade aos povoados “outroladenses”. 

Por questões culturais, as quais foram ditadas pela necessidade de um tipo de embarcação apropriado à natureza do trabalho e do transporte demandados, a canoa impõe a sua predominância, não dando vez a que as jangadas façam parte do cenário das praias camocinenses. Definitivamente, a canoa à vela prossegue reinando naquele estuário e nas praias que emolduram o nosso município.

  E, assim, em tempos que já se foram, também fez parte desta frota de pequenas embarcações, a Flor das Ondas, nome da canoa à vela do Piluca, o nosso velho e conhecido canoeiro.

 O seu nome era Antonio Piluca do Nascimento ou, simplesmente, “Seu” Piluca, nascido em Camocim aos 17 dias de janeiro de 1892, filho adotivo das praias e dos manguezais, imperador do estuário do Rio Coreaú e sábio navegador, que conciliava a direção do seu destino com a vontade dos ventos, e bordejava como poucos, diante da inércia das calmarias. 

Sua canoa, a quem ele batizara de Flor das Ondas, media pouco mais de seis metros ou, talvez, um pouco menos, tamanho que não condiz com a grandeza do trabalho que praticou, durante mais de sessenta anos.

Via de regra, “seu” Piluca mantinha as pernas de suas calças arregaçadas, deixando bem à mostra os pés descalços e engelhados, resultado da rotina que o obrigava a submetê-los à umidade e ao frio. 

Era um homem alto e magro, com seu inseparável chapéu de palha e em luta constante das idas e vindas entre os lados do estuário, profissão de onde arrebatava o seu sustento e tornava possível a sobrevivência de tantos quantos utilizavam os seus serviços. 

Sua vida inteira foi dedicada ao trabalho de canoeiro, sendo, por isso, conhecedor nato dos segredos da vida praiana e dos mistérios incontáveis das águas. 

Verdadeiramente, parecia que o velho Piluca integrava o próprio ecossistema onde nasceu e criou-se, estranhamente resistente e inexplicavelmente sobrevivente de uma simbiose com a natureza, sempre à mercê das idas e vindas das marés. 

Como cidadão, foi um grande benfeitor nas relações humanas, trabalhando e servindo, sobrando-lhe, ainda, tempo e bom humor para as pilhérias que o ajudavam a tocar a vida.

- “Seu” Piluca, a que horas o senhor vai atravessar o pessoal? Pergunta alguém, sem nenhuma pretensão de viajar na sua canoa, e sem esconder que o verdadeiro objetivo era, apenas, trocar piadas com o velho canoeiro, uma forma de “insulto” que os amigos lhe dirigiam, para receber de volta as suas providenciais respostas.

- Eu vou ali no mercado, mas volto logo para lhe atravessar, respondia ele, de pronto, rindo da sua própria resposta de duplo sentido, temperada com astúcia de um lobo, mas, desprovida de qualquer maldade ou ofensa a seu semelhante.

A essência desta resposta era uma de suas marcas registradas, dentre outras que atirava aos amigos quando “provocado” durante a sua lida, matando as velas ou usando o remo para o controle da canoa, durante a atracação. Era, apenas, uma retribuição à intimidade do conterrâneo, coisa simples do povo interiorano.

 A Flor das Ondas foi, com certeza, a única grande amizade de “seu” Piluca que não suscitou ciúmes à Dona Maria do Carmo, sua esposa. Inevitavelmente, ela teve que dividir os anos de sua vida conjugal com a velha canoa preta, calafetada aos domingos e exigindo remendos para a sua vela em dias outros, sabe Deus quantos. 

Havia, sem dúvidas, um trato de camaradagem entre a nave e o navegador: “eu cuido de você e você me ajuda a sobreviver”, diria o velho canoeiro à sua inseparável companheira de trabalho.

 Durante várias décadas, o “seu” Piluca realizou um trabalho de suma importância para um povo que se beneficiou com o transporte de sua Flor das Ondas, aclamando-o, merecidamente, como um grande benfeitor.

 Entretanto, se não fosse pela simplicidade, que lhe foi peculiar durante toda a vida, provavelmente “seu” Piluca teria a vaidade de divulgar, nas rodas de conversas ou jactando-se nos burburinhos do mercado, a sumidade em que se constituiu, quando foi ele o principal canoeiro que se fez ao largo do estuário, em Camocim, no dia histórico do monumental retorno do aviador Euclides Pinto Martins, à sua terra natal.

 No dia 19 de dezembro de 1922, proveniente de uma escala em Belém, amerrissava no estuário do Rio Coreaú, em Camocim, o hidroavião biplano Sampaio Corrêa II, pilotado pelo ilustre aviador camocinense, recém chegado de sua viagem pioneira, dos Estados Unidos da América do Norte, ao Brasil. 

A aeronave, de dois motores Liberty, de 400 HP cada um, posicionou-se ao largo, enquanto “seu” Piluca deslocava a velha canoa ao seu encontro, transportando a ilustre comitiva de recepção, composta pelo Dr. Faustino de Albuquerque, Juiz de Direito; o senhor Horácio Pessoa, Presidente da Associação Rural, conhecida como Banquinho Rural; e o senhor Raul Oliveira, Jornalista e Correspondente de Jornal da Capital Cearense. 

A comissão apresentou as boas-vindas à heróica tripulação do Sampaio Correia II, composta pelo aviador Euclides Pinto Martins e o Comandante Walter Hinton, além de um jornalista e um mecânico, americanos e companheiros da grandiosa jornada.

 Na praia, cercados pela multidão que se comprimia em busca do espaço para ver de perto o herói camocinense, os demais membros da Comissão de Recepção Tobias Navarro, José Coelho e Antonio Fernandes Barros aguardavam que os viajantes pisassem em terra firme, a fim de serem iniciadas as homenagens, que lhes foram preparadas. 

Inúmeras outras canoas, talvez duas dezenas, rodeavam a Flor das Ondas, como se esta fosse uma Fragata, no comando de uma Esquadra Real. Mas, tudo era proveniente da ansiedade em ver de perto o hidroavião Sampaio Correia II e sua tripulação.

 Na sua modesta, porém honrada, função, o “seu” Piluca, ainda na plenitude de seus trinta anos, cumpria com competência e responsabilidade, o ritual de seu trabalho, próprio dos melhores canoeiros.

 Após a recepção aos heróis do Raid New York-Rio de Janeiro, e os festejos de sua memorável epopéia, no dia seguinte, pela manhã, o hidroavião deslizou no estuário pela última vez, alçando voo e rumando com destino ao Rio de Janeiro.

 Nos dias que se seguiram, este assunto dominava todas as rodas de conversas, e Camocim festejava o feito de seu filho mais ilustre.

 O outro filho seu, também ilustre, porém, menos famoso, retornou à sua rotina do trabalho de modesto canoeiro, ainda por mais quarenta e nove anos, singrando as águas do estuário, que foi o seu pequeno mundo. 

E quis o destino que dali mesmo ele partisse em sua viagem mais longa, o seu “raid” misterioso, não documentado, navegando pelos mares do “outro lado da vida”, em esplendorosas jornadas pelos diferentes segmentos do plano etéreo.

  No dia 31 de outubro de 1971, o velho Piluca deixou as últimas pegadas de seus pés descalços, no solo lamacento e salgado do Outro Lado, onde o seu corpo foi encontrado, frio e inerte, sob as sombras úmidas do manguezal onde viveu.

Texto extraído do livro "Outros Tempos", de José Maria Trévia