Naquela manhã chuvosa em que os trovões ribombavam forte, como mil canhões na épica batalha de Waterloo, que pôs um fim definitivo à expansão do império de Bonaparte, e os raios riscavam o céu, de forma incessante, trazendo a lume medos ancestrais a muitas pessoas, inclusive a mim próprio, peguei um busão da Guanabara e fui dar um passeio na loira desposada pelo sol a fim de estreitar os laços familiares e rever velhos amigos plantados para sempre no solo fértil da mocidade.
Cheguei a Fortaleza, após uma viagem tranquila, com o coração mais leve do que pluma de algodão novo, recém saído do campo, com os olhos abraçando a metrópole, com alegria, embasbacado ao admirar tanta beleza, estampada na sua pujante arquitetura urbana, com o verde dos canteiros das avenidas e praças dando um toque solene todo especial, naquela miríade de cores que se coavam dos edifícios, como se quisesse, mesmo em silêncio, saudar com gritos de júbilo o visitante.
No domingo, como de costume quando estou na capital alencarina, fui à missa do meio dia, com meu pai, na catedral, abrasando a chama da fé ao ouvir, com toda atenção, a prédica inigualável do Pe. Clairton Alexandrino, que discorria, com a clareza do sol do sertão, sobre o Sermão da Montanha, aquele em que o Rabi de Nazaré, reunindo uma multidão, falou acerca das nove bem-aventuranças, vendo-me, por instantes, no sopé do monte, perto de Cafarnaum, na Galileia, dentre aqueles que se apraziam com a doçura das palavras do Divino Mestre:
Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos céus;
Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados;
Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança;
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão saciados;
Bem-aventurados os misericordiosos, pois obterão misericórdia;
Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus;
Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus;
Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos céus;
Bem-aventurados serão vocês quando, por minha causa, os insultarem, os perseguirem e levantarem todo tipo de calúnia contra vocês.
Por fim, como num sonho, saí dali, cercado por um burburinho de vozes daquela gente simples, muitos vindos de aldeias distantes no intuito de ver o Nazareno, de encontrar-se com ELE, e, ao ouvi-lo, tecer novas esperanças nos seus corações aflitos, levando-os, por conseguinte, a semear o bem pelos caminhos, e, ao voltar ao tempo presente, sentado na ala leste da nave central de onde se descortina o antigo Palácio do Bispo, sentindo-me reconfortado espiritualmente, o riacho de emoções que estava represado em mim, fluiu, com ímpeto incomum, alargando as margens de minha vã compreensão sobre a misericórdia do Senhor.
Ao término da missa, descendo a escadaria rumo ao estacionamento, eis que me deparo, para surpresa minha, com o Bodó, dileto companheiro de classe do Seminário de Santo Antônio, nos alcantis da Borborema, em Campina Grande – PB, nos idos do século passado, aluno brilhante, muito dedicado aos estudos, que rivalizava, desde Tianguá, com um menino tremembé franzino, que ainda usava calça curta, tímido qual peixe-boi, a primazia de ser o primeirão da turma.
Depois dos abraços fraternos e de mergulharmos um pouco nas águas profundas do passado, recordando os bons tempos, ao perguntar-lhe sobre a saúde, ele olhou-me com um olhar cheio de tristeza, dizendo-me que tivera alguns senões, sem dizer quais, que o deixaram com sequelas que ainda carregava, mas que, no momento, encontrava-se melhor.
Ao perceber que aquela conversa poderia desaguar perigosamente no terreno pantanoso das lamentações, e, por não ser Jeremias, que, devido à sua profunda compaixão pelo povo e pela cidade de Jerusalém, chorou sua queda em 586 a.C., quando o Templo foi destruído pelo Império Babilônico, refletindo o sofrimento coletivo de Israel, tratei logo de mudar rapidamente o curso da rota, passando a falar-lhe da família, das belezas da minha amada cidade, Camocim, do nascer da lua cheia, por detrás dos manguezais, que enche tudo de encanto e poesia, ao pratear o mar, além de reportar-lhe a vida espartana que ali levava.
Foi aí, ao calar-me, que o velho amigo, após dizer algumas amenidades, falou, num tom de voz professoral, acerca do Apophis, o asteroide do Armagedon, descoberto por astrônomos americanos em 2004, que, segundo a previsão de alguns deles, poderia colapsar com a Terra, em 2029, levando, assim, consigo, a civilização humana ao seu trágico fim.
Muito embora já soubesse daquilo, através de um documentário que assistira recentemente, mas, por ver o Bodó tão falante, de repente, sorrindo até, por vezes, diante do meu “inusitado” espanto ao ouvir sua explanação, deixei que ele percorresse do a a z as letras do alfabeto, fazendo caras e bocas em alguns trechos de sua narrativa dos fatos, fazendo-se assim, por excesso de cientifismo, o arauto do apocalipse.
De nada adiantou argumentar que, de acordo com renomados cientistas, a chance desse meteoro colossal colidir com o nosso planeta era de menos de 3%, uma chance em 380.000, segundo cálculos de probabilidade, algo que, a meu juízo, isto não deveria gerar tanta preocupação ou quiçá tirar o sono dos supremos intocáveis tupiniquins.
Ao nos despedirmos, o Bodó, certamente não querendo me desagradar, uma vez que ambos estávamos contentes por aquele reencontro franciscano da imorredoura amizade forjada nos bancos de IPUARANA, apesar das disputas acirradas que sempre travávamos pelas notas mais altas, ele advertiu-me, agora, com vigor redobrado, mas com uma voz cadenciada, que seria bom que nos preparássemos logo para o pior cenário que poderia ocorrer - e que orássemos a Deus para afastar da humanidade a tragédia anunciada do impacto do Apophis conosco.
Medroso que sou, acho bom mesmo eu seguir o seu sábio conselho.
*Professor e Escritor Camocinense
