A costura é uma prática ancestral que remonta ao período Paleolítico, há mais de 25 mil anos, quando os primeiros humanos utilizavam agulhas feitas de ossos e fios de tiras de couro para unir peles de animais, garantindo proteção contra o frio.
Na Antiguidade, grandes civilizações como os egípcios, sumérios e persas aperfeiçoaram a costura, valorizando bastante a estética das vestimentas que passaram a refletir, desde então, a identidade cultural de cada povo, através de bordados e adornos sofisticados.
Com os cavalos da carruagem do calendário dos anos trotando velozes, eis que, em meados do século XX, numa cidadezinha banhada pelo Atlântico, no tablado de xadrez de seu belo desenho urbano, havia uma ruazinha sem graça, triste, escondida pelo matagal, distante do centro e perto de um campo santo, com uma única entrada e saída, pontilhado por alguns casebres, que se bronzeavam ao sol, onde morava uma costureira, ainda jovem, sem formosura alguma, mas de coração samaritano, cujo nome foi perdido nas brumas do tempo.
Esse logradouro surreal era chamado por todos nós de Rua da Gaveta.
Naquela época, diziam os mais antigos em prosaicas rodas de conversa, muitas pessoas costumavam partir para as estrelas somente na velhice, quase mesmo centenárias, sem pressa alguma, portanto, de conhecerem Caronte, o sombrio barqueiro do Hades que carrega as almas dos mortos sobre as águas tormentosas do rio Aqueronte, exigindo de cada um que entra na sua balsa, para fazer esta derradeira travessia, uma moeda.
Segundo a lenda, aqueles que não possuíam condições de pagar a quantia estipulada tinham de vagar pelas margens por cem anos.
No entanto, sabe-se que a coqueluche, a disenteria e a má nutrição tinham planos perversos, ceifando, aqui e ali, de forma cruel, pequeninos rebentos.
Apesar de sua pobreza e de residir longe, por ser uma boa profissional, uma modista de primeira linha, como se diz popularmente, ela recebia encomendas, usualmente para feitura de vestidos, o que lhe proporcionava o básico para sua sobrevivência, ao lado da filhinha, porquanto o marido, anos atrás, fora para São Paulo, dizendo-lhe que voltaria em breve, porém, ele jamais retornaria.
Certa feita, numa manhãzinha fria de inverno, quando voltava do mercado com a sua cestinha de compras, ao contornar as lagoas da Senador Jaguaribe, ela ouviu, para espanto seu, o repique melancólico do sino da Matriz de Bom Jesus dos Navegantes que anunciava, aos gritos, acordando a urbe, que ainda dormitava, a chegada de mais um tremembezinho no céu.
Envolta em pensamentos lúgubres, que não lhe davam nenhuma trégua, devido a uma noite mal dormida em que tivera um sonho ruim, que ecoava em sua mente, com o manto da aflição a cobrir-lhe parcialmente o olhar, acercou-se logo de uma comadre sua, que se encontrava por aquelas redondezas, perguntando-lhe, após cumprimentos cordiais, quem embarcara tão cedinho no trem estelar.
E soube, com detalhes precisos, relatados calmamente pela senhora como se estivesse falando de uma receita culinária qualquer, do trágico afogamento de um menino, filho de um respeitável meieiro, no Lago das Cangalhas, ocorrido no dia anterior, enquanto brincava, feliz, com outros amiguinhos, o que ensejou um rosário de dores para a família enlutada que, por certo, no funeral, receberia o conforto dos amigos.
E ela lembrou-se, por fim, tristemente, do pesadelo que a abalara tanto!
Aquela fatídica notícia deixou a costureira deveras abatida por que conhecia bem a mãe do garotinho, ambas filhas de Maria, que se confraternizavam alegremente, por vezes, depois das missas dominicais - e o peso da angústia da amiga era uma pedra imensa que esmagava a sua alma.
De volta a casa, avistou nuvens escuras tingindo o horizonte, e, da soleira da porta, antes de entrar, viu as cruzes que guardavam solenemente os túmulos, que se esparramavam soturnos em derredor, que lhe pareciam braços erguidos em súplica perene aos céus, como se clamassem, em silêncio, misericórdia a Deus por todos aqueles que, ali, repousavam.
E logo mais, pensou, com os olhos rasos d'água, haveria mais uma cruzinha no cemitério!
E invernos chegaram e partiram sem que a costureira percebesse!
E a rotina do seu labor, monótono, cansativo, continuava inalterada!
E, aos poucos, ela mergulhou no poço profundo da melancolia!
Naquele ano em que tudo escureceu no seu caminho, o mês de dezembro chegou, trazendo, consigo, rajadas de ventos que rugiam, pelos ares, mil relâmpagos e trovões, além de chuvaradas que encheram rápido o pote gigante do Lago Seco.
Com a alegria do Natal assomando, em cada lar, sua pequenina adoeceu.
E não demorou quase nada foi levada pelos anjos para o páramo!
Depois disso, a pobre costureira enlouqueceu!
Cedo também partiu!
E a cidade emudeceu!
*Professor e Escritor Camocinense
