O relógio da parede bebeu ligeiro a noite, enquanto eu, ainda insone, ouço o amigo irmão vento soprando segredos seculares, nas folhas das árvores, lá fora, enroscando-se, cá dentro, brincalhão loquaz, nos galhos retorcidos do pé de bogari, que enfeita o jardinzinho de casa, trazendo para mim, de novo, um turbilhão de recordações da meninice, que teimam em aflorar, bem nítidas, agora, no outono da minha vida.
Ah! A infância! Passarinho multicolorido que gorjeia, feliz, ao raiar da Alva, solfejando, sempre, sublimes notas musicais que tocam a alma.
No país da infância, minha cidade amada cabia inteirinha na palma de minha mão. E, naquele mundo encantado, tudo era belo, ordenado, seguro. Não havia senões, indiferenças, medos, nem tampouco tristeza.
Os sonhos voavam, livres, pelo céu, qual bando de alegres gaivotas que riscam, com suas asas tingidas de luz, o oceano, à procura de alimento.
Naquelas manhãs ensolaradas, havia banhos de mar na Praia dos Coqueiros, almoços de corós deliciosos, noites perfumadas de ave-marias, estrelas que sussurravam, mesmo a distância, estórias extraordináras de perdidos reinos planetários que nem mesmo Flash Gordon, herói espacial criado pelo genial ilustrador americano Alex Raymond, nos anos 30, caso ele tentasse, jamais poderia encontrá-los.
Havia, também, na Matriz, as missas dominicais em latim, solenes, cheias de incenso, que inebriava os sentidos, os sermões – e o exemplo – de Monsenhor Inácio Magalhães, a fascinante descoberta das primeiras letras, a algazarra inexcedível de meus irmãos, a inigualável solicitude de mamãe – e os sábios ensinamentos de meu pai.
No país da infância a energia elétrica não se cansava nunca, nem um pouquinho, pois ela não precisava correr de Paulo Afonso até Camocim.
Era barulhenta, metódica e pontual, fruto do trabalho incansável dos potentes motores a diesel da Usina de Força, que ficava, logo ali, defronte à residência do meu avô Antônio dos Santos, na Rua 24 de Maio, na antessala da Rua do Egito, que ostentava casarões antigos.
No país da infância havia, sempre, no cais, grandes navios, enquanto a Maria Fumaça desbravava, sem pressa, as trilhas do sertão, incensando tudo à sua volta, nas viagens maravilhosas que fazíamos a Massapê para visitar os meus avós maternos Raimundo Anastácio e D. Marieta.
E os apitos plangentes ecoavam pela cidade!
Pela hora nona, via-se uma flotilha de canoas de velas multicores, descendo, por trás da Ilha da Testa Branca, rumando, apressadas, para a Pedra do Mero, trazendo, consigo, peixes diversos, ariacós, serras, pescadas amarelas e cavalas, que eram vendidos, ali mesmo, a preço módico, pelos respectivos donos das embarcações, aos clientes fiéis, cotidianos, que aguardavam, ansiosos, a chegada delas, conversando amenidades uns com os outros, querendo fazer o tempo logo passar.
Havia o “ Balaio de Gato” levando muitos passageiros a Parnaíba, reisados varando a doce madrugada, ao som dos acordes magistrais de Benone e Botafogo, enquanto os namorados, de mãos dadas, sentados nos bancos das pracinhas, confidenciavam baixinho quimeras mil.
Havia serenatas ao luar de amores perfeitos, lamparinas a espantar o breu da noite, cegonhas que perdiam o rumo e aqui aportavam com suas preciosas cargas, além de pios estridentes de corujas e caburés na vã tentativa de afugentarem os temíveis fantasmas noturnos.
Havia, ainda os inesquecíveis folguedos de São João, os traques e bombas rasga-latas, pamonhas e milho assado, bolos e pés de moleque.
Havia amigos que já se foram, os leilões paroquianos com seu público cativo e suas múltiplas prendas, que iam da gastronomia fina a animais diversos, notadamente bodes e novilhos, a Voz de Camocim, os Sonoros Pinto Martins, o Cine João Veras, o Balneário e o Comercial Clube.
Havia o Natal em família, o Menino-Deus no presépio, a Missa do Galo.
E a paz reinava pela cidadezinha inteira!
No país da infância, o riso não era amordaçado nunca por nenhum temor, a esperança não divisava fronteiras, a ampulheta do tempo era infinita, a fé era acalentada docemente, no peito, ao se rezar o terço.
E o impossível era apenas algo que nós não sabíamos o significado.
No país da infância, as manhãs eram luminosas, repletas de contentamento, no aconchego insuperável de uma velha casa, simpática e de coração enorme, que nos acolhia a todos tão bem – e nos falava, olhando, pensativa, os intermináveis avanços e recuos do mar, com uma voz meiga, de coisas tão ternas que somente ela mesma conhecia.
No país da infância o passaredo teimava em tecer os seus ninhos nas copas das goiabeiras e sapotizeiros, revoando, pelos quintais, espargindo alegria e beleza, enchendo os balões coloridos dos dias com trinados maviosos, sustenidos e si-bemóis que não se ouvem jamais.
No país da infância, a saudade era uma palavra vazia, desconhecida, mas que hoje é tão amargamente presente, o amor era colhido em buquês de adorável fragrância – e as asas ligeiras da felicidade era um som que reverberava insistentemente nos nossos imberbes ouvidos.
No país da infância...
Quando o amanhã chegar sem mim, quanta falta eu sentirei de tudo isto que vivi, na minha terra querida, nos verdes anos da existência.
Obrigado, Senhor, por tantas bênçãos! Louvado seja o vosso nome!
*Professor e Escritor Camocinense
