Tendo dobrado o Cabo das Tormentas, constato, cada vez mais, no rufar incessante da sucessão dos dias, que o ontem e o hoje na verdade se fundem, não sendo, portanto, como pensamos erroneamente, compartimentos estanques desse grande navio do tempo, algo que Einstein, através da sua brilhante Teoria da Relatividade, explica bem.
Na vida, muitas coisas dependem essencialmente do nosso ângulo de visão e do conhecimento que dispomos para que possamos analisá-las corretamente. Outras, contudo, basta seguirmos as linhas do coração.
Conheci, ao longo da minha jornada, pessoas que atraíam, por seu carisma nato, a amizade, a simpatia e o respeito de seus semelhantes. Dentre estes seres de luz, se sobressai a figura de um velho sapateiro de outrora, que já anda nas pradarias do céu, que nos deixou, a nós, descendentes do valorosos tremembés, um legado de respeitabilidade, estoicismo e de atenção insuperável à família, mesmo na sua pobreza.
O seu nome completo era Tasso Rodrigues dos Santos. Nascido em Camocim no distante ano da graça de 1915, vindo de berço simples.
Homem macérrimo, rosto encovado, de fala mansa, polido, aparentava uma tristeza infinita no olhar capaz de comover o czar Ivan, o Terrível, acaso ele tivesse tido a oportunidade de vê-lo. Não tinha estudos. Por isto, cedo tornou-se um bom sapateiro. Além disso, era também músico.
Exerceu com eficiência essas duas profissões singulares, atividades estas que lhe renderam, senão uma merecida estabilidade financeira, a admiração de todos aqueles que tiveram a felicidade de conhecê-lo.
Nos alvores dos anos 60 do século passado, com a sua inseparável tuba, ritmou o compasso da Banda Municipal que alegrava a cidade inteira com suas melodiosas marchas, retretas e alvoradas festivas. E por quase uma centena de invernos foi um extraordinário sapateiro.
Recordo-me que o seu humilde ambiente de trabalho, talvez por ironia fina do destino, ficava olhando de frente para o imponente prédio do Banco do Brasil, todavia sem aparentar qualquer cerimônia. E era justamente para lá que afluía a sociedade camocinense de antanho em busca do melhor lustre de sapatos já feito um dia por estas bandas.
Lembro-me que meu pai, José dos Santos, regularmente enviava os nossos shoes para serem “vistos”, como gostava de dizer, pelo “Seu Tasso”. Invariavelmente o escolhido para esta perigosa missão era eu. Não me perguntem o porquê. Foi justamente nestas idas e vindas ao seu “estabelecimento” que comecei a enxergá-lo com mais atenção.
Chegava com a “trouxa” de sapatos nas mãos, depositava-a solenemente no balcão e esperava que ele gentilmente me atendesse.
Por anos a fio, eu mantive rotineiramente o curso do leme para ali. E ele, mumificado para sempre pelas agruras da existência, nada falava, fazendo do seu labor diário uma correia de polia que o ligava ao mundo.
Trabalhava sem parar, exceto aos domingos que tirava para descansar.
Algo que me impressiinava muito era o fato de ele usar basicamente o tato para exercer o seu mister porquanto suas retinas pareciam totalmente apagadas de luminosidade. Os óculos de grossa armadura que usava, creio que era somente para compor a sua distinta imagem.
Imaginem o grau maior de dificuldade no cotidiano de sua profissão!
Manteve, até o desfecho final de sua melancólica caminhada terrena, a sua postura serena diante das vicissitudes da vida. Era um estoico sem saber ao certo o que isso significava pois nunca lera Marco Aurélio.
Beirando os noventa anos, com o andar claudicante, abatido, mas firme de propósito, por conta da imperiosa sobrevivência ainda resistia na sua trincheira encravada, no centro, ao lado do outrora casario de D. Mimi.
Au revoir, sr. Tasso!
Perdoe, peço-lhe, às pessoas pseudo-ricas, esnobes, que, por se considerarem, talvez, melhores que as demais, não lhe trataram com a devida reverência que merecia, não se importando nem um pouco com a sua frágil canoa, que, à deriva, pobrezinha, com a vela rasgada, enfrentava, sozinha, o furor de fortes ventos e tristemente naufragava.
No fim, bons samaritanos acenderam para ele o farol da compaixão.
Amanhã, contudo, velho sapateiro, o sol vai brilhar - e será outro dia!
*Professor e Escritor Camocinense
