sábado, 17 de outubro de 2026

O VOO DAS GARÇAS

Por Avelar Santos*

A vida, hoje, sei, com convicção, é um mosaico de emoçõe mil, sonhos, ideais, lembranças, cujas cores afloram nítidas, quanto mais impactante tiver sido a beleza do momento por nós vivido.

Nada há de mais poético que o crepúsculo, esta hora bendita da transição entre a grandiosidade dos últimos raios solares a clarear um mar calmo, de ondas serenas, com gaivotas revoando à flor da água, e as sombras da noite que invadem, sorrateiramente, tudo à volta, permitindo-nos observar o fulgor das primeiras estrelas.

Uma das cenas que trago guardada a sete chaves, na memória, é a revoada das garças, nos manguezais, ao pôr do sol, à época da cidade, ainda menina-moça, insuperavelmente bela, que passeia encantadora e incansavelmente pelas veredas do meu coração.

À tardinha, o ruge-ruge de pessoas, de andar apressado, cruzando a Praça Vicente Aguiar, anunciava que o trem estava prestes a chegar.

De repente, como num passe de mágica, uma multidão surgia ao largo da gare da imponente estação ferroviária, ponto de encontro cotidiano da urbe, vinda de todos os recantos citadinos, falando pelos cotovelos, enquanto aguardava, ansiosamente, a chegada do paquete.

Nesse ínterim, via-se, por toda extensão dos mangues da Ilha da Testa Branca, dezenas de garças, em voo rasante sobre o pélago de pura esmeralda, deslizando, suavemente, cada uma delas, pelo espaço, com perfeição, batendo, com leveza, suas asas, imaculadas borboletas gigantes, majestosas, buscando um abrigo para a noite.

Que espetáculo lindo!

Poder-se-ia dizer que elas enfeitavam, singelos flocos de algodão, um gigantesco painel natural, os maguezais, fazendo, com os guarás, um contraste cheio de significado: o branco da paz e o vermelho da vida.

Do balaústre amigo, sozinho, eu olhava, os incessantes movimentos delas, do outro lado do Rio da Cruz, brincando como se fossem crianças - e uma paz do tamanho do oceano invadia o meu ser.

Ah! Como eu era feliz, meu Deus, e não sabia!

Ao longo da jornada, porém, comecei a perceber, ensimesmado, sem saber o porquê, que o balé celestial das garças, que vira amiúde, na meninice, tinha cada vez menos participantes, o que era uma pena.

Por anos a fio, o nosso entardecer camocinense perdeu esse brilho.

Todavia, que felicidade, as garças retornaram, aos poucos, ao estuário do bravo Rio Coreaú, branquejando novamente o verde dos manguezais.

Um dia desses, pelas ave-marias, meditando sobre a mesquinhez e a crueldade tirânica de uns pobres diabos que detêm temporariamente o poder, sentindo-se como verdadeiros semi-deuses, repletos de desfaçatez, quando fui arrebatado dos meus pensamentos, ao divisar, alegremente, uma revoada de garças, ao longe, nas antigas salinas da Martinelli, tendo como pano de fundo uma radiosa lua cheia, compondo uma cena magnífica que nem mesmo Van Gogh, com toda sua genialidade, conseguiria reproduzir.

Nesse instante, um vendaval de recordações invade minha mente, fazendo-me retroceder no tempo num voo planado extraordinário.

Vejo-me, voltando da Escola de D.Mimi, com meus irmãos, brincando, com eles, pelo caminho, e, ao chegarmos em casa, éramos recebidos, com grande alegria, enquanto o cheiro inconfundível de um camurupim cozido, feito pela Maria, invadia tudo.

De noitinha, na hora do Angelus, era o momento solene de agradecermos ao Altíssimo pelas bênçãos de mais um dia.

Após cearmos, cansados de tantas estripulias, não demorava quase nada para o sono chegar.

E aí, D. Margarida, minha mãe, com uma paciência infinita e um sorriso permanente nos olhos, colocava cada um, na sua rede, e cantava, para nós, canções que nos falavam de amor e paz.

Ah! Essas lembranças tão boas, ternas, me matam de saudade!

O poético voo das garças tem um quê mágico, na sua simplicidade, que sempre me emociona.

É o voo alto da emoção que aquece a alma, beijaflando o passado, que teima em não partir.

*Professor e Escritor Camocinense