domingo, 21 de fevereiro de 2021

ALÍSIOS ESQUECIDOS

Por Adauto Gouveia Motta Júnior
As águas do Coreaú estão para Camocim, assim como o céu para as aves. É a sua razão de ser e a existência da cidade está, intrinsicamente, ligada ao rio e ao mar. Sua vocação maior. 
Aquilo que se relaciona ao seu ambiente natural e suas condições, renderam, desde sempre, frutos ao município e é no mínimo estranho que a sua principal característica original, de porto marítimo, aéreo e ferroviário, de praça detentora de uma considerável lâmina d’água de variadas feições e aproveitamentos, seja relegada, incompreensivelmente, a segundo plano.

Temos, certamente, o mais imponente conjunto foz/estuário, entre outros tantos e belos existentes ao longo do extenso litoral cearense; dotado de idílicas dunas, restingas e mangues extraordinários. Suas águas tépidas, a temperatura amena, os ventos predominantes do nosso cenário, invocam a nossa propensão ao rio e seus arredores. 
A índole ribeirinha nativa, contudo, não condiz com a subutilização que a população faz das suas águas.
Mesmo o município se perde na negligência para com o seu mais importante tesouro. Qualquer outro lugar adotaria, racionalmente, este recinto como um santuário ecológico e tudo que a ele se relacionasse seria instrumento de proteção e cuidado.

Entre os vários aspectos tratados com desdém, o das atividades náuticas esportivas ou de recreio sobressai-se, pela inoperância. 
Afora a presença de um reduzido número de abnegados velejadores de windsurf, categoria de prancha à vela mantida às duras penas pela falta de apoio e estrutura, nada existe no âmbito interno das seguras e abrigadas águas do Rio Coreaú neste sentido.

Mesmo os exemplos dos municípios vizinhos, do entorno ou dos estados mais próximos, que viram suas condições de abrigadores de um sem número de praticantes de esportes aquáticos, do Brasil e do exterior, aumentarem significativamente e tiveram suas receitas acrescidas pelo turismo náutico pujante, não conseguiram sensibilizar o poder público ou a iniciativa privada existentes, para esta obviedade. 


No tocante à receptividade ao iatismo, desconheço planos ou projetos locais relacionados à uma atividade que pode render dividendos e colocar Camocim no mapa mundial. 
Veleiros de cruzeiro, aos milhares e diariamente, singram os mares, em todas as direções, em busca de lugares paradisíacos, onde seus abastados tripulantes possam descansar, reabastecer seus tanques, repor seus estoques de mercearia, realizar os rotineiros e necessários reparos nas suas embarcações.

No início dos 80’s, um empresário cearense do ramo de hotelaria, desejoso de montar uma marina no seu estabelecimento, fez um estudo de viabilidade do empreendimento: naquela época havia um fluxo anual de 3000 veleiros de médio e grande porte passando ao largo do litoral cearense. As características da costa setentrional do Nordeste colocam Camocim no centro de um hiato de assistências desta natureza. A construção de píers e ancoradouros onde estes barcos possam permanecer pode gerar dividendos: um veleiro médio mede 40 pés (aproximadamente 12 metros) e o preço da atracagem gira em torno de US$ 2,00/pé/dia; ou seja, oitenta dólares por diária (R$ 430,00 ao câmbio atual), sem dispender com instalações, serviços de recepção, camareiros, rouparia, lavanderia, limpeza, conservação, manutenção, etc. 

Em palestra proferida na cidade na década passada, Amir Klink, grande admirador do acervo náutico ainda existente em Camocim e talvez o mais emblemático nome da marinharia brasileira contemporânea, declarou ser aqui o melhor fundeio do Brasil. Conheço alguns excepcionais pontos de ancoragem ao longo da costa brasileira e julguei um tanto exagerada a afirmação. Mas quem sou eu para duvidar de alguém com tanta experiência e prestígio neste assunto?

Com algumas providências básicas, como o balizamento do canal de acesso, a batimetria do estuário, instalações náuticas dignas, marina(s), Camocim pode dar um salto quantitativo na sua condição de cidade turística, sem modificações físicas significativas e com investimentos relativamente modestos. Os modernos meios de comunicações, utilizados pelos navegadores, com boletins de press release, fazem com que iatistas tenham acesso instantâneo a toda e qualquer modificação no meio: um rochedo ameaçador localizado e plotado passa a fazer parte das cartas náuticas imediatamente; assim como a insegurança de um porto (como o de Fortaleza, por exemplo), é bradada aos quatro ventos e aquele ponto deixa de ser frequentado.

Alguém duvida que Camocim, com estrutura nesta área e seus atrativos naturais, sol, vento, boa gastronomia e o calor da hospitalidade do seu povo, possa ser tornar um point de encontro de velejadores de cruzeiros, desejado e bem frequentado? 
Poucos lugares possuem tão boas condições para tanto.


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